O CEGO QUE ENXERGAVA XIBIU

*Otoniel Gondim

blogqspxilogravuracordelFaça chuva ou faça chuva, é de impressionar os fatores que fazem com que uma normal pessoa de vista tenha menos poderes que um cego, enxergue menos ou mesmo não importe-se de enxergar bem a tudo ou a nada como se deve ou deveria. Acontece que, abundante da vista, pense-a eterna ou, lá quem sabe, orgulhe-se de já ter visto tudo, a tudo e de tudo.

Enquanto isso, o deficiente ( Será mesmo deficiência? ) se provoca a enxergar pelas escuras pálpebras até o impossível imaginário. E olha que  analisando, sonhando cores, odorizando perfumes, melodiando os seus sistemas cerebrais célebres. Impressionante como os ditos cujos dos ditos normais  por muitos, têm a visão no atraso mental de luz. Luz na verdadeira acepção morfológica-física-óptca de luz.

Foi definindo o que viu,acompanhou, testemunhou, descobriu, sofreu, sobre um inusitado e pitoresco acontecimento em sua vida, que Arnô contou, conta e contará sempre o seu caso desse jeito: “ Osvaldo, o conheci numa das reuniões da Associação de Cegos Santos da Luz. Cativou-me de imediato pela notória sabedoria fina, profunda e um amplo conhecimento geral.

Conversava bem e debatia arte, música, ciência e literatura.O que não interessava, nisso comungava com ele, era a política e o futebol. Orgulhava-se do dom de ter nascido sem a visão, ceguinho da silva das sete cores , do branco, e elogiava o negro. Chegava ao ponto de ser voz ( isso lhe soçobrava.)  cortante contra cirurgias de córneas ( Brincava de ser coisa de corno.) , íris, cristalinos e, num imenso exagero, ser contra o uso de óculos, lentes e, tome mais  exagero, até de colírios. Tinha escritos seus engavetados a respeito

e sonhava, após a morte, que dariam um baita de um best-seller. Pense num cego arretado. Assim  conheci Osvaldo e o visitei inúmeras vezes, tornamo-nos amigos confidentes. Acreditava piamente que um cego poderia ser neutro, imparcial, sem subterfúgios, maldades, ganâncias, avarezas,invejas, malandragens.

E aí me soltava soltando os verbos  entalados das minhas indignações, revoltas,sentimentos, escombros,alegrias,sonhos,confidências e segredos do passado, do presente e invocando o futuro, o trabalho,  a família.

E tudo iniciou…

Estava muito bem casado, dois filhos na Universidade, executivo bem sucedido, intelectualismo sólido, esposa amando e sendo amado. Por isso um cego sábio, dominante das letras, inteligente, cordial, paciente, de enorme senso de humor, era o que de melhor poderia existir nesses tempos de ira, cobiça,falsidade, cólera,para uma grande amizade duradoura . Quiçá, por que não?, eterna.

Portanto e mais que portanto dessa forma e jeito, foi um pulo Osvaldo adentrar com a sua simpatia benevolente na minha casa e  , até então, reclusa família. Todos gostaram-nos em todas as suas muitas vertentes que, diga-se de passagem, não eram poucas. Dizia que era cego da luz física, nunca dos raios de luz sentimental e  do coração. E que isso o livrava de ver assassinatos,guerras, tragédias diversas, etc e tal.Era, pois, um artista impregnado de um largo conhecimento de artes, de importantes livros, de músicas que iam do Oiapoque erudito clássico ao Chuí popular com mensagens. Bravo ficava era somente ouvir falar de cão guia. Tocar nisso o deixava-o aos palavrões de tanto vermelho.Por isso, tinha sempre muito cuidado, dever e a obrigação de não importuná-lo com asneiras supérfluas. Eu e todos da família, principalmente a minha esposa Selma, o queríamos sempre próximo e feliz com as suas piadas prosais e poéticas, os seus discernimentos em verdadeiras aulas sobre a humanidade, a história universal, o seu modo de viver e, pasmen!, o comportamento sexual dos homens e das mulheres. Nisso Osvaldo, por incrível que pareça, tinha incessância profunda de opinião e nos deleitava a ponto de, quando se ia, eu e a minha esposa termos noites memoráveis de sexo, libidinagem e muita tesão.Assim, quando o assunto após o jantar descambava para esse tema,sentia com entusiasmo  um prelúdio e premissa de morbidez trêmula e tesuda em Selma, minha mulher, e íamos às luas na cama. O cego Osvaldo   tinha caído sobre a gente como um anjo do céu por tudo.

Algumas vezes visitávamos Osvaldo na sua Associação.Fui vendo que o que gostava mesmo e o fazia sentir-se bem e à vontade  era quando o nosso encontro se dava na minha residência.Assim, todos os encontros passaram, invariavelmente, a ser nela. Perguntávamos, eu e Selma, um ao outro e a nós mesmos: Como pode ser possível a existência de uma figura  humana tão  decente, doce, atraente, tal qual  Osvaldo? E Selma, ao que passei a concordar sem resmungos, dizia que ele a enxergava mais por fora e por dentro que ela mesma. Sorriamos.

Muitas vezes, por trabalho, ausentava-me.  Selma me deixava a par das conversas. Como a que,num determinado dia chuvoso, Osvaldo chorou muito ( Não disse o porquê.) e ela teve de fazer um calmante chá e a lhe fazer carinhos como  a um menino desamparado. Senti-me preocupado  com o meu dileto amigo, pois, caso tivesse um sério problema , somente a nós ele tinha. No entanto, foi algo passageiro e factual, me pareceu tempos depois.Logo o velho Osvaldo de todos voltou ao costumeiro bom humor melhor do que antes. Selma e eu o acolhíamos cada vez mais acaloradamente e, um dia desses, comecei a pensar que isso poderia  ser , no fundo , uma espécie de pena. Pena de um ser humano que nascera privado da  linda propriedade organoléptica responsável pela  luz, pela beleza da natureza do olhar reflexo e refratário das cores : A VISÃO. Resolvi, sozinho junto aos meus botões, que resumia-se a simples  pena de um  coitado.Falando a Selma sobre , ela vociferou, não gostou nadinha e disse-me impropérios mil nunca escutados, dentre eles, o de desumanidade, egoísmo,escrotidão, covardia, sacanagem.Jamais na minha vida tinha ouvido tanta ofensa ao meu caráter,hombridade.Acrescento ainda que veio em seguida um discurso bonífero a Osvaldo: Demasiado humano.bondoso, corajoso, imponente. E terminou , antes de se retirar, complementando em voz alta: Cegueira não é crime e nem defeito.Para ele, veio acompanhado do grandioso homem em que se transformou. Homem que respira dia e noite amor dos pés à cabeça, pousando tudo no coração.

Fiquei atônito, chateado comigo, a pedir  perdões pelo mal feito.Depois dessa abalável conversa, procurei ausentar-me com desculpas esfarrapadas nos dias em que Osvaldo estivesse presente em casa. Síndrome de ressaca moral, pensei. Logo volto à ativa e tudo estará bem. Procurando  amenizar  o clima do nosso meio ambiente familiar  fui a um shopping atolar-me de presentes para três : Eu, Selma e Osvaldo. Chegando à minha residência  vi o invível, ouvi o inouvivel, deparei-me com o indeparável: Selma e Osvaldo nus,embolados na minha cama. Sobressaltado e ofegante aproximei-me pianinho, pisando em algodão, virei para meu  próprio suplício, testemunho do mais impensável diálogo:

___  Ô Selma, minha Selminha, desde o primeiro contato com as suas preciosas e suaves mãos, senti algo forte, algo do enorme apego que devoto a você, meu amor.

——  Ô Osvaldo, meu Osvaldinho,aos poucos o meu coração, foi amolecendo,  dilacerando,abrindo  portas e janelas para ti.Que bom que nele penetraste, meu amor.

—— Te vejo por que a tua luz adentrou e trouxe visão a mim.

——- Me beija mais Osvaldo.

—— Sim, minha Selma.Enxergarei para sempre essa minha obra-prima que és.

—— Ô amor, mais e mais.

Diante disso e amuado, Arnô retornou pelas próprias pegadas, sorrateiro e triste profundamente. Foi ao primeiro bar diluir-se em goles,  sonhar tudo ser um pesadelo que precisava passar, bastando acordar do estar, infelizmente, acordado. .Não interessava a ele fazer um debate sobre si mesmo.Se o fizesse,  poderia  abrir um caminho para a coragem do suicídio, da moratória de um julgamento sumário por uma verdade fatal: Ser traído pela amada esposa e preterido por um cego que se fez de amigo e irmão.

Por um cego?

Para Arnô, o único culpado, o único sacana, o único pecador, o único ordinário na história, era Osvaldo.

Então, entrar na sua casa e sem cão guia guiar-se até Selma e fincar-se na sua cama e no coração da sua amada, mereceria algo.

Então, as palavras do cego eram simples espasmos terríveis para acenos obscenos, excitabilidades camufladas, manhosas afetivas e astutas. Um descarado verme às escuras,mereceria algo.

Não passava de um deficiente humano, mereceria algo.

Esse cego, um anti-ser com todas as chaves marginalescas possíveis e às mãos para destruir um lar acolhedor, harmonioso, afinado. Arnô não cessava e não titubeava ao repetir “ O sangue vence a alma, o sangue vence a alma, o sangue vence a alma…”.

Pensou simplório se esteve sempre muito errado com Selma e se esse ato único de traição  poderia e  deveria ser relevado. Quem sabe o cego odiento os deixaria em paz, retornando à sua vidinha inerte.Perdoaria Selma e concordariam em que às vezes a causa de tudo é somente o uso não pensado de uma vagina e de um pênis. Pronto, bateriam o martelo por esse breve passado e voltariam  ao velho e normal hábito familiar,como se nada do ocorrido tivesse ocorrido. Juntos esperariam, afinal, as formaturas dos filhos. Bom  demais. Porém, seria uma merda hipocrisia tudo isso depois de tudo aquilo, rosnou.Há sim, concluiu, que haver punição aos que devam ser punidos,pois, os dois o fizeram de trouxa, submetendo-o a abusos de ordem moral , de corpo e de consciência.O colocaram, descarada e fortuitamente num abismo vivencial “in loco” e sem ilusões.Fedendo estava a remédio amargo e nada mais restava do que bater o prego do destino:  Matar a sua covardia, matando…

Lembrou a que limite Selma chegara. Se achasse que o erro estaria nele , então  ele era o cego e não Osvaldo. Seria isso, dizia, não meu Deus! Jamais a verdade faria algo tão abominável de sublime. Apenas, e isso o deixava um pouco aliviado, o cego enxergara a sua mulher de um outro modo e maneira que não ele e os seus olhos . Osvaldo a acolhera nos seus poréns e de forma malandra, estreitando laços, fomentando as aguças dos prazeres eróticos, mórbidos  libidos. Só pode ter chegado, ele, ao ponto “ G “ dela, a sua.O despertar nela as volúpias das lascívias imorais sexuais, só podia ser. Osvaldo, safado sabido,mostrava-se na manha amuado, triste somente para tomar chá calmante , deitar e receber carinhos no colo de Selma. Só podia ser. Osvaldo, o cego, contava casos, prosas e piadas para ter o aval dos olhares picantes de Selma. Osvaldo, o cego, iludibriava a todos, principalmente a ela, com maestria falsa.Osvaldo, o cego,planejou  até a minha Selma abrir-lhe as pernas. Cego tem olho no pênis e enxerga bem por ali?

Osvaldo, o cego que enxergava xibiu.

Arnô, ofegante e a passos largos volta à sua casa, repetindo “ O sangue vence a alma. O sangue vence a alma. O sangue vence a alma…” Vai um tanto anestesiado pelos pensamentos ao armário e pega a arma, caminha até o seu quarto  vendo, sentindo e ouvindo os sussurros de trocas de amor eterno em profusão.

Eis os três com olhares entreolhados estabanados e perplexos no quarto.Num silêncio desinocente,ouve-se um  só tiro, sentido por um.

Osvaldo, o cego que enxergava xibiu, não enxergaria mais.

Arnô, voltaria a enxergar, verdadeiramente, a sua Selma.

Selma esqueceria o  cego Osvaldo.Por ele ter conseguido , finalmente, ela ser enxergada  como deveria pelo seu amado Arnõ, Arnô o perdoaria e o agradeceria para sempre.

O AMOR É CEGO???

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