SOBRADINHO: DAS RAÍZES DO SERTÃO ÀS ÁGUAS QUE ILUMINAM O NORDESTE

Por Rinaldo Remígio*

Há cidades cuja história se reconhece nas fachadas antigas, nos caminhos de pedra e nas praças centenárias. Sobradinho, no norte da Bahia, convida-nos também a olhar para as águas. Na imensidão de seu lago, encontram-se trabalho, transformação e lembranças de um sertão que precisou aprender a viver com uma nova paisagem.

Como sertanejo e historiador, compreendo que contar a trajetória de uma cidade exige enxergar além de seus monumentos. É preciso reconhecer quem chegou primeiro, quem trabalhou a terra, quem construiu suas ruas e quem enfrentou as mudanças. Sobradinho merece esse olhar: sua importância ultrapassa a barragem que a tornou conhecida, alcançando as raízes e a capacidade de realização de sua gente.

Muito antes das máquinas e das turbinas, aquele território já possuía vida e história. O registro histórico disponibilizado pelo IBGE menciona a presença indígena dos Tamoquim e relaciona a ocupação colonial à expansão das fazendas de criação de gado ligadas à Casa da Torre. A Fazenda Tatuí aparece nessa memória como referência de uma sociedade formada entre a caatinga e o São Francisco, sustentada pela criação de animais, pela pesca e pelas lavouras de subsistência.

Também o nome Sobradinho guarda a simplicidade das referências que ajudam a identificar um lugar. Segundo a hipótese registrada pelo IBGE, a denominação teria surgido de um pequeno sobrado situado próximo à cachoeira. O nome de uma construção teria passado à paisagem e, posteriormente, à cidade.

A grande transformação viria na década de 1970. Em 1973, começaram as obras da Usina Hidrelétrica de Sobradinho, empreendimento da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco, a Chesf. A geração de energia teve início em 1979. Trabalhadores de diferentes procedências chegaram à região, trazendo suas famílias, seus costumes e a esperança de construir uma vida melhor. O empreendimento impulsionou a formação urbana que daria origem ao município emancipado.

O acampamento de trabalho tornou-se lugar de pertencimento. Onde havia a expectativa de uma permanência provisória, nasceram vínculos duradouros. Famílias decidiram ficar, criar os filhos e participar da construção de uma comunidade. Seus moradores ajudavam a levantar, ao mesmo tempo, as paredes das casas e os alicerces da identidade coletiva.

Na memória desses primeiros tempos, cabe registrar a trajetória do senhor Nilo Remígio Gomes, comerciante e barrageiro que, em 1973, no início das obras, chegou à localidade vindo de Oeiras, no Piauí. Era um homem movido pelo trabalho: bastava ouvir falar na abertura de uma frente de serviços para sentir vontade de participar. Onde chegavam trabalhadores e surgiam necessidades, Nilo enxergava uma oportunidade de oferecer seus serviços e ganhar o sustento.

Segundo as lembranças que aqui registro, foi um dos pioneiros a se estabelecer na Vila São Joaquim, onde construiu uma casa de taipa, no centro da vila. Naquela moradia simples, começou a vender panelas de barro e utensílios domésticos. Participava, assim, do comércio que atendia às necessidades das famílias e dos operários envolvidos na construção da barragem.
Nilo não parava. Sempre tinha algo a oferecer ao operário-barrageiro: panelas, roupas, hospedagem e alimentação. Seu trabalho acompanhava as necessidades de quem chegava, muitas vezes longe de casa, precisando de um lugar para dormir, de uma refeição e dos objetos mais básicos para organizar a vida.

Com ele veio uma família numerosa, e todos trabalhavam. Cada qual dava sua contribuição, repartindo tarefas e ajudando a construir o sustento familiar. A casa de taipa tornou-se ponto de moradia, comércio e acolhimento, fazendo parte daquele cotidiano em que o crescimento da vila era vivido de perto, dia após dia.

Acredito que os moradores mais antigos de Sobradinho ainda se lembrem da Movelaria Pioneira e da loja Eletromovelar, instaladas na Vila São Joaquim. Esses estabelecimentos foram marcas deixadas por Nilo Remígio Gomes, Ivonete Remígio e seus filhos, uma família que fez do trabalho parte de sua contribuição à cidade. Da casa de taipa aos empreendimentos que permaneceram na lembrança dos moradores, essa trajetória merece ser registrada na memória comercial e afetiva de Sobradinho.

Recordar essa família é reconhecer também os pequenos comerciantes que participaram da formação da cidade. Enquanto os barrageiros erguiam a grande obra, homens e mulheres como Nilo e Ivonete atendiam às necessidades de quem a construía. O desenvolvimento também passou pelas mãos de quem vendeu uma panela, preparou uma refeição e abriu a porta para hospedar um trabalhador.

Minha ligação com Sobradinho também se escreve no campo das lembranças pessoais. Cheguei à cidade em 1978, quando ela ainda pertencia ao município de Juazeiro, sua cidade-mãe. Pude acompanhar parte de seu desenvolvimento, perceber o movimento provocado pelas obras e conviver com pessoas que, assim como eu, encontraram naquele lugar oportunidades de trabalho e novos caminhos para a vida.

Trabalhei na contabilidade de uma das empresas prestadoras de serviços na barragem, experiência que passou a integrar minha trajetória profissional. Por trás dos números e dos registros contábeis, havia o esforço cotidiano de trabalhadores que participavam de uma transformação marcante para o sertão e para o Nordeste.

Guardo na memória a inauguração da eclusa, que testemunhei no final de junho de 1980. Recordar aquele momento é reencontrar uma etapa da minha própria vida, ligada ao crescimento de uma cidade que se consolidava diante dos nossos olhos.

Sobradinho também me presenteou com amizades que permanecem até os dias atuais. Por isso, ao escrever sobre suas origens, sua economia e suas potencialidades, escrevo com o olhar do historiador e com o sentimento de quem participou de uma parte dessa caminhada. Há lugares que permanecem em nós pelas pessoas que conhecemos e pelos momentos que vivemos. Sobradinho é um desses lugares.

Esse afeto também me faz reconhecer que uma crônica histórica precisa acolher as dores das transformações. A formação do reservatório provocou deslocamentos de milhares de pessoas e a realocação das sedes de Casa Nova, Sento Sé, Remanso e Pilão Arcado. Sob as águas ficaram referências de comunidades inteiras. Reconhecer a importância energética da obra exige igualmente respeitar a memória das populações atingidas.

A autonomia política de Sobradinho chegou em 24 de fevereiro de 1989, pela Lei Estadual nº 4.843, com o desmembramento de Juazeiro. A instalação do município ocorreu em 1º de janeiro de 1990. A comunidade passou a ter administração própria e a responsabilidade de conduzir seus destinos.

Nesse capítulo, deve ser lembrado Geraldo Francisco da Silva, conhecido como Geraldo Silva, o primeiro prefeito de Sobradinho. Sua condição de primeiro gestor é reconhecida em registro da própria Prefeitura. Seu nome integra a memória dos primeiros passos da autonomia municipal, quando era necessário organizar a estrutura administrativa e dar forma às instituições da nova cidade.

A emancipação representou uma conquista coletiva e trouxe novas responsabilidades. O lugar que recebera trabalhadores de tantas origens precisava fortalecer seus serviços, organizar suas prioridades e construir uma vida municipal para além do empreendimento que impulsionara seu crescimento.

Décadas depois, Sobradinho continua ocupando posição estratégica no Vale do São Francisco. Sua hidrelétrica possui seis unidades geradoras, com capacidade instalada de aproximadamente 1.050 megawatts. Além da produção de eletricidade, o reservatório desempenha papel fundamental na regularização das águas do rio, contribuindo para o funcionamento de outras usinas e para os usos da água ao longo do São Francisco.

A força das águas aproxima-se de outras possibilidades de desenvolvimento. A agricultura irrigada, as energias renováveis e o turismo estão entre as potencialidades apresentadas pelo município para atrair investimentos. São oportunidades que precisam ser transformadas em atividades duradouras, com planejamento, qualificação profissional e respeito ao ambiente.

A economia contemporânea deve ser observada tanto na dimensão dos grandes empreendimentos quanto nas atividades que sustentam as famílias. Segundo o IBGE, o PIB por habitante de Sobradinho foi de R$ 35.664,15 em 2023. Esse indicador representa a produção econômica dividida pela população; não corresponde ao salário ou à renda recebida por cada morador.

Como contador e mestre em Economia, considero essencial essa distinção. Os indicadores ajudam a compreender a dimensão econômica de um município, mas precisam ser acompanhados de um olhar sobre o emprego, a renda das famílias e as condições dos pequenos empreendedores. O desenvolvimento ganha sentido quando aparece na mesa das pessoas, na formação dos jovens e na possibilidade de trabalhar com dignidade.

Nas águas, a pesca e a piscicultura constituem fontes concretas de trabalho. Um exemplo é a Cooperativa de Produção e Comercialização dos Derivados de Peixes de Sobradinho, a Coopes. Em informação publicada pelo Governo da Bahia em 2025, a entidade reunia 67 famílias produtoras, com participação majoritária de mulheres, comercializando filés e outros produtos beneficiados da tilápia em Sobradinho, Juazeiro e Petrolina.

Ao beneficiar o pescado, a comunidade acrescenta valor à produção, amplia suas possibilidades de comercialização e fortalece a organização coletiva. A economia ganha expressão humana no esforço de quem cria, pesca, prepara, transporta e vende. A participação das mulheres nessa atividade revela sua importância na sustentação das famílias e na construção de alternativas de renda.

A agricultura e a criação de caprinos e ovinos também integram as atividades locais. O fortalecimento dessas cadeias produtivas, associado ao comércio e aos serviços, pode ampliar as oportunidades para os moradores e estimular a circulação da renda no próprio município.

O turismo encontra na paisagem um convite. A barragem, a eclusa, os passeios pelo São Francisco e lugares como a Ilha da Fantasia, o Balneário Chico Periquito e o Porto Juacema compõem os atrativos divulgados pela Prefeitura. Há ainda referências a sítios arqueológicos com pinturas rupestres, patrimônio que exige proteção e visitação responsável.

Vejo aí uma oportunidade de aproximar natureza, memória e geração de renda. O visitante que contempla o lago pode conhecer também o trabalho dos pescadores, experimentar a culinária local e compreender a história das comunidades. Para isso, é preciso valorizar quem vive no território e assegurar que os benefícios da atividade cheguem aos pequenos negócios e às famílias.

Seria igualmente valioso ampliar a preservação dos depoimentos de antigos moradores, comerciantes e trabalhadores. Fotografias, documentos e relatos ajudam as novas gerações a compreender como a cidade se formou. Histórias como as de Nilo, Ivonete e seus filhos merecem permanecer acessíveis aos que vierem depois. Quem participou daquela caminhada guarda informações que precisam ser registradas enquanto podem ser contadas pela própria voz de seus protagonistas.

Sobradinho reúne uma história mais antiga que sua emancipação e uma importância maior que suas dimensões municipais. Carrega a memória indígena, a experiência dos antigos criadores e lavradores, o esforço dos trabalhadores da barragem e a disposição dos que continuam construindo seu cotidiano.

Ao recordar minha chegada, em 1978, reencontro o jovem que ali trabalhou, fez amigos e acompanhou parte dessas mudanças. Um ano após chegar à cidade, casei-me com minha prima legítima, Ilza Elisabete Sales Remígio, no templo da Primeira Igreja Batista de Sobradinho, em cerimônia oficiada pelo pastor Valdemir Luís dos Santos. A cidade tornou-se, assim, cenário de um dos momentos mais importantes da minha vida, onde firmamos nosso compromisso de amor e iniciamos nossa caminhada matrimonial. O tempo passou, mas permaneceu a gratidão. Escrever sobre Sobradinho é também prestar uma homenagem às pessoas que fizeram parte da minha vida e à cidade que acolheu meu trabalho, minhas amizades e a formação da minha família.

Que seu futuro seja conduzido com respeito a essas raízes. Que a energia produzida encontre correspondência em educação, trabalho, preservação ambiental e dignidade. E que os jovens possam reconhecer sua cidade como um lugar onde vale a pena permanecer, empreender e realizar sonhos.

Porque Sobradinho ajuda a iluminar o Nordeste, mas sua história será ainda mais bonita quando as oportunidades iluminarem, cada vez mais, a vida de sua própria gente.

*Professor universitário aposentado, administrador, contador, historiador e mestre em Economia!

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