Em 1926, no auge das tensões políticas que sacudiam o Brasil, o nome de Lampião deixou de ser apenas sinônimo de banditismo no sertão e passou a carregar um título que até hoje provoca debates: capitão. A patente, concedida em circunstâncias controversas, foi parte de uma tentativa desesperada do governo federal de conter a ameaça da Coluna Prestes, um movimento rebelde que cruzava o interior do país desafiando a autoridade da República.
Naquele momento, o presidente Artur Bernardes enfrentava um cenário instável. A Coluna Prestes avançava pelo território nacional, expondo a fragilidade do poder central, especialmente no Nordeste. Sem tropas suficientes e conhecedor das dificuldades de combater em regiões dominadas pela caatinga, o governo passou a considerar alianças improváveis.
Foi nesse contexto que surgiu a ideia de utilizar o bando de Lampião, experiente em combates, conhecedor do terreno e temido por onde passava.

A articulação partiu do deputado federal cearense Floro Bartolomeu, figura influente em Juazeiro do Norte e aliado próximo do Padre Cícero. Lampião e seus homens foram então atraídos à cidade sob promessas tentadoras: anistia pelos crimes cometidos, dinheiro, armas modernas e a oficialização do grupo como uma força patriótica a serviço do governo. No centro do acordo estava a concessão da patente de capitão a Virgulino Ferreira da Silva.
O documento que selava o acordo foi assinado por Pedro Albuquerque Uchoa, um agrônomo que, naquele momento, era a única autoridade federal presente em Juazeiro do Norte. A concessão ocorreu sob a orientação e o aval moral do Padre Cícero, cuja influência política e religiosa era enorme na região. Apesar da formalidade do papel, a patente não tinha respaldo legal nem validade militar dentro das Forças Armadas.
Mesmo sem valor jurídico, o título teve efeitos imediatos. Lampião passou a se apresentar como “Capitão Virgulino”, incorporando a patente à sua identidade. Isso lhe conferiu maior prestígio, reforçou sua imagem de autoridade e ajudou a consolidar sua liderança tanto entre os cangaceiros quanto diante de parte da população sertaneja, que passou a vê-lo como alguém reconhecido pelo próprio governo.
O acordo, porém, não prosperou. A desconfiança entre as partes era grande, e Lampião jamais chegou a enfrentar efetivamente a Coluna Prestes. A morte de Floro Bartolomeu, principal articulador da negociação, enfraqueceu de vez a iniciativa. Sem garantias reais e percebendo a instabilidade da promessa governamental, Lampião seguiu seu próprio caminho, mantendo-se no cangaço e usando a patente mais como símbolo do que como compromisso.
Assim, a história da patente de capitão revela um dos episódios mais paradoxais do cangaço. O governo tentou transformar um fora da lei em aliado militar, enquanto Lampião soube usar um título vazio como instrumento de poder e propaganda. No fim das contas, a patente de 1926 não passou de uma jogada política frustrada, mas deixou uma marca duradoura na construção do mito de Lampião, o cangaceiro que, ao menos no papel, virou capitão do Brasil.