Por Rinaldo Remígio*
Passado o primeiro turno das eleições, uma reflexão se impõe: que mudanças estamos cobrando do Brasil e o que estamos dispostos a fazer para que elas aconteçam? Vejo sinais de mudança, mas acredito que sua profundidade dependerá também da nossa postura como cidadãos.
Na minha percepção, há um cansaço com promessas repetidas, com disputas que deixam as necessidades da população em segundo plano e com discursos que apresentam serviços públicos como demonstrações de generosidade pessoal de quem governa.
Precisamos discutir a maneira de governar, as prioridades e os resultados. Trocar nomes não basta quando permanecem as mesmas práticas.
Recebi uma mensagem que relacionava programas e benefícios, atribuindo sua criação ao atual governante. A leitura me levou a pensar sobre como reconhecemos as realizações de uma gestão e sobre o papel da sociedade no financiamento dessas iniciativas.
Tenho respeito por quem estuda, se dedica e conquista seus títulos acadêmicos. A universidade pública tem um papel fundamental nessa trajetória e no desenvolvimento do país. Valorizar essa contribuição também exige reconhecer o esforço coletivo que a sustenta.
Foi nesse sentido que refleti sobre a expressão “universidade gratuita”. A gratuidade para o estudante é uma conquista que merece respeito. Entretanto, ela não significa ausência de custos: a manutenção das instituições depende de recursos públicos, financiados pela sociedade, inclusive por pessoas que nunca tiveram a oportunidade de frequentar uma universidade.
Minha reflexão, portanto, é esta: por que tratar um serviço público como se fosse um favor pessoal de quem governa? Sua realização exige recursos, planejamento e trabalho. O dinheiro administrado pelo poder público não pertence ao governante.
Reconhecer o mérito de uma gestão por criar ou melhorar uma política pública é justo. Mas esse reconhecimento não deve se transformar em obrigação de apoio eleitoral. Cada cidadão é livre para valorizar uma iniciativa, criticar outras e escolher seus representantes conforme sua consciência.
É a transformação de direitos em favores políticos que me incomoda. Na minha compreensão, o populismo encontra espaço quando a promoção pessoal de uma liderança ganha mais importância do que os resultados das políticas públicas. Por isso, defendo que os programas sejam avaliados pela seriedade de sua execução, pela responsabilidade na aplicação dos recursos e pelas oportunidades que ajudam a construir.
Sou nordestino e defendo minhas raízes em qualquer lugar onde esteja. Conheço o valor da nossa gente, sua capacidade de trabalhar, criar e vencer dificuldades. Justamente por isso, acredito que devemos cobrar mais de quem pede o nosso voto. Nosso povo merece respeito, oportunidades e condições para construir o próprio caminho.
Não sou contrário à proteção social. Quem enfrenta a fome não pode esperar. Mas entendo que os programas precisam caminhar junto com educação de qualidade, qualificação profissional, emprego e incentivo à produção. Amparar quem precisa é um dever; ampliar suas possibilidades de autonomia também.
Essa cobrança vale para o Nordeste e para todo o Brasil. Nenhuma região pode ser diminuída pelas escolhas de seus eleitores. Podemos discordar do voto de alguém sem desrespeitar sua história ou sua dignidade. Da mesma forma, receber um benefício social não diminui a capacidade de ninguém de pensar e decidir por si.
Quando digo que nós, irmãos, conterrâneos e compatriotas, precisamos levantar a cabeça, incluo a mim mesmo. Precisamos participar com consciência, conferir informações e cobrar resultados, inclusive daqueles que apoiamos. O compromisso com o país deve ser maior do que a fidelidade a qualquer político.
Euclides da Cunha escreveu em Os Sertões: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte.” Essa força também precisa aparecer na nossa independência de pensamento, na coragem de questionar e na disposição de exigir respeito.
E, quando falo em pensar no Brasil, lembro do verde, do amarelo, do azul e do branco da nossa bandeira, um dos maiores símbolos da nação. Não estou falando de bandeiras partidárias, mas das cores que pertencem a todos nós, independentemente de nossas escolhas políticas. Elas não devem ser tratadas como patrimônio exclusivo de qualquer grupo, e nenhum brasileiro deve se sentir afastado do que representam.
Acima das preferências partidárias, precisamos pensar no Brasil, na sua gente e no nosso futuro. Nossa bandeira deve nos unir em torno desse compromisso, respeitando a diversidade de ideias que faz parte da democracia.
Diante do quadro que se apresenta após o primeiro turno, inclusive quando pessoas conhecidas e amigos não alcançam a vitória nas urnas, devemos evitar chacotas, piadas ofensivas e manifestações de desprezo. Por trás de cada candidatura existem pessoas, famílias, esforços e expectativas. A vitória de uns não deve servir de motivo para humilhar os outros.
Este é um momento de respeito e serenidade. Peçamos a Deus que esteja à frente dos caminhos da nossa nação, concedendo sabedoria aos eleitos, fortalecendo aqueles que não alcançaram a vitória e nos ensinando a conviver com as diferenças.
Também precisamos tomar cuidado para que a vontade de mudança não se transforme em aceitação de qualquer promessa. Renovação exige responsabilidade, respeito à Constituição e disposição para prestar contas.
É esse o Brasil que desejo: um país que acolha os mais vulneráveis, valorize o trabalho e ofereça perspectivas às novas gerações. Um país onde o cidadão reconheça seus direitos e não precise agradecer como favor aquilo que o poder público tem o dever de assegurar.
*Professor universitário aposentado.