Por Rinaldo Remígio* –
Hoje (ontem) pela manhã, conversando com um amigo, conversa vai, conversa vem, falamos de futebol. E, naturalmente, falei do meu Santinha, que garantiu o retorno à Série B do Brasileirão para 2027, dez anos depois de sua última participação.
Uma alegria para quem acompanhou tantos anos de dificuldades e conhece a paixão de uma torcida que nunca deixou de acreditar.
Para finalizar o bate-papo, veio uma pitadinha de política. Foi quando o amigo me contou:
— Remígio, coloquei aquela música da nossa época, “Eu te amo, meu Brasil”, no grupo da família. E alguém falou: “Tira essa música, podem nos censurar!”
A observação ficou comigo. Tratava-se de uma reação em uma conversa familiar, não de uma notícia de censura.
Mesmo assim, aquele receio me fez pensar sobre como temos interpretado nossas manifestações de amor ao país.
Gravada pelo grupo Os Incríveis em 1970, a canção marcou nossa geração.
Para mim, guarda uma bonita mensagem e desperta lembranças de juventude.
Como estudioso da história, reconheço também que ela foi utilizada pela propaganda do regime militar, o que ajuda a compreender as diferentes interpretações que provoca.
Podemos preservar uma lembrança afetiva e, ao mesmo tempo, reconhecer o contexto histórico ao qual ela está ligada.
Dessa conversa nasceu a vontade de escrever. Voltei à infância, quando aprendíamos a reconhecer a bandeira, a cantar o Hino Nacional e a respeitar os símbolos da nossa terra.
O verde, o amarelo, o azul e o branco já faziam parte da nossa formação muito antes das disputas políticas de hoje.
Nas escolas, nas solenidades e nas competições esportivas, essas cores despertavam um sentimento de pertencimento.
Éramos parte de um país imenso, com diferentes regiões, costumes, crenças e histórias de vida.
Após as eleições do primeiro turno, vi imagens da bandeira brasileira tremulando em várias cidades. Ao observá-las, pensei no quanto precisamos cuidar do significado desse símbolo. Cada pessoa pode carregá-lo com suas expectativas e convicções, mas ele representa uma nação inteira.
*A bandeira do Brasil pertence a todos os brasileiros*.
Quem vota de maneira diferente da nossa também tem o direito de amá-la e nela reconhecer sua própria história. Nenhum resultado eleitoral modifica esse pertencimento.
Essa reflexão nos leva à República e à trajetória que percorremos desde sua proclamação, em 15 de novembro de 1889. A mudança da forma de governo abriu um capítulo marcado por transformações sociais, diferentes constituições e disputas pela ampliação da participação popular.
Falo como professor universitário aposentado e estudioso da história. A experiência em sala de aula reforçou em mim a convicção de que conhecer o passado nos ajuda a compreender o presente.
Nossa trajetória republicana exige esse olhar atento: tivemos conquistas, mas também restrições de direitos, períodos autoritários e difíceis processos de redemocratização.
O reconhecimento do voto feminino, a ampliação dos direitos políticos e a Constituição de 1988 representam marcos dessa caminhada. Por trás deles, existem gerações de brasileiros que lutaram para participar das decisões nacionais. O direito que exercemos hoje carrega uma história de esforços que merece respeito.
Na intimidade da escolha eleitoral, cada cidadão traz suas experiências e preocupações. Uns pensam na educação dos filhos; outros, no atendimento de saúde, no emprego ou na segurança de sua comunidade. São necessidades concretas que aproximam a política da vida cotidiana.
Por isso, o voto merece reflexão. Conhecer a trajetória dos candidatos, analisar suas propostas e observar a coerência entre palavras e atitudes são cuidados importantes. Promessas precisam ser examinadas pela possibilidade de realização e pelos benefícios que podem trazer à população.
Na minha percepção, uma parcela do eleitorado demonstra cansaço com o atual governo e deseja uma mudança de direção — sentimento que considero legítimo.
Agora, no segundo turno, duas candidaturas estarão diante dos brasileiros: a de quem busca permanecer no poder, cuja forma de governar já conheço, e a de um candidato mais jovem que, aos meus olhos, demonstra disposição para governar e promover mudanças.
Essa expectativa, porém, precisa ser acompanhada de uma avaliação criteriosa. A juventude, por si só, não garante competência, assim como a experiência não dispensa a análise dos resultados.
Cabe observar o que cada candidato propõe e sua capacidade de transformar compromissos em ações.
Como professor, vejo na informação uma companheira indispensável da consciência cidadã. Ler, comparar e ouvir ajudam a construir escolhas próprias, especialmente em meio ao barulho das campanhas e à velocidade das mensagens que chegam às nossas mãos.
Tenho minhas convicções e as expresso com respeito, sem pretender impor minha escolha a ninguém. Cada cidadão é livre para decidir de acordo com sua consciência.
Precisamos respeitar esse direito, assim como desejamos que respeitem o nosso.
Independentemente da região onde vivemos, fazemos parte do mesmo país. Nenhum brasileiro deve ser diminuído por sua origem, seu sotaque ou sua preferência eleitoral.
Agora, vamos mais uma vez às urnas escolher quem conduzirá o país nos próximos quatro anos. As decisões dos eleitos influenciarão os serviços públicos, as oportunidades e as condições de vida da população. *Nosso voto tem consequências, e nossa responsabilidade continua depois da eleição.*
Definidos os resultados, devemos desejar que os escolhidos realizem uma boa gestão e pedir a Deus que lhes conceda sabedoria, equilíbrio e sensibilidade para governar para todos.
Isso é compatível com manter nossas convicções, exercer a crítica e cobrar o cumprimento dos compromissos assumidos.
A cidadania exige acompanhamento. Cabe-nos fiscalizar os mandatos, avaliar os resultados e lembrar que os recursos públicos pertencem à sociedade. O interesse coletivo deve orientar as decisões de quem recebe a confiança das urnas.
Também é assim que o respeito à bandeira ganha sentido: na honestidade com que trabalhamos, no cuidado com o patrimônio público, na responsabilidade com a informação e na maneira como tratamos o próximo.
O patriotismo encontra sua expressão mais concreta nas nossas atitudes.
Volto à conversa daquela manhã. Começamos com a alegria do meu Santinha e terminamos pensando no Brasil.
Uma lembrança musical e a observação de um amigo abriram espaço para refletir sobre liberdade, história e convivência.
Quero continuar olhando para o verde, o amarelo, o azul e o branco com o carinho que aprendi desde criança. Quero que meus filhos e netos encontrem nessas cores um sentimento de pertencimento e uma responsabilidade compartilhada.
Diante das urnas, fazemos escolhas diferentes. Depois delas, continuamos compartilhando o mesmo país.
*Este país é o Brasil, a nossa casa comum. Que o amor por ele se revele no respeito às diferenças, na liberdade de escolha e no compromisso com a dignidade de todos os brasileiros.*
Professor universitário aposentado, administrador, contador, historiador e mestre em economia.