O senador Jaques Wagner é considerado um dos grandes nomes da política baiana nessa primeira metade do século XXI. E não somente os aliados dele pensam assim, tanto que adversários costumeiramente fazem elogios à postura republicana com que lida com os problemas. No entanto, ao longo dos últimos anos, Wagner tem trazido para si outra marca: a de roubar o protagonismo daqueles que ele mesmo prega serem protagonista.
Na última sexta-feira, o senador anunciou a chapa de Jerônimo Rodrigues completa, tendo ele próprio e o ministro Rui Costa como candidatos ao Senado e Geraldo Jr. como vice. Dois dias antes, Wagner disse ao Bahia Notícias que somente Jerônimo poderia anunciar Geraldo Jr. como vice, porém, enquanto o governador estava na Índia com a comitiva de Luiz Inácio Lula da Silva, ele o fez sem parcimônia.
A saída de Angelo Coronel do grupo também passou por declarações públicas do senador. Ele foi quem primeiro defendeu a chapa “puro-sangue” petista e construiu o caminho para que o parceiro de Senado fosse colocado à margem e praticamente como um inimigo do grupo. Nessa situação, porém, o movimento pareceu bem orquestrado e até combinado com os outros envolvidos.
Não é a primeira vez que Wagner tem uma atuação assim sobre chapas majoritárias. Em 2022, foi ele quem antecipou que Rui não cumpriria o acordo de renunciar para ser candidato a senador. O resultado foi a saída de João Leão do grupo político, magoado e bastante chateado por ter sido informado da situação por uma entrevista concedida por Wagner na Rádio Metrópole. Rui, protagonista na resolução da crise, acabou relegado a coadjuvante no processo e cumpriu o mandato como governador até o final – afinal, não poderia deixar a cadeira para alguém que se tornou adversário.
Em 2024, coube a Wagner alimentar o sonho insosso de Geraldo Jr. ser candidato a prefeito de Salvador, prometendo apoio da esquerda para o vice-governador. Bancou a ideia até o final e “convenceu” Jerônimo que era uma boa ideia para enfrentar um prefeito bem avaliado e candidato à reeleição (Bruno Reis) apostar num ex-aliado, que saiu do grupo como franco atirador. A derrota não foi apenas acachapante, como constrangedora, já que o PSOL ficou com a segunda colocação. Mais uma vez, o timoneiro do grupo foi Wagner ao invés de Jerônimo, como se pregava na época. E olha que nem dá pra argumentar que o anúncio da permanência de Geraldinho como vice é um abono para o episódio de 2022, já que aquela eleição foi quem balançou o tamanho do vice.
No âmbito partidário, o democracia petista também lida com a batuta de Wagner, que controla discretamente as decisões do núcleo duro do PT na Bahia. Tanto que, há alguns anos, o presidente regional do partido só é eleito se tiver a anuência do ex-governador – e olha que Rui até tentou ter o mínimo de ascendência e ficou como a terceira pessoa depois de ninguém nos últimos pleitos. O senador é quem dá as cartas, simulando muito bem a construção do consenso entre os pares e sem dar margem a questionamentos.
É impossível falar de política da Bahia sem falar de Jaques Wagner. Porém é preciso também analisar com cautela os episódios em que ele antecipa aliados e reforça o próprio protagonismo, impondo funções de coadjuvante para quem não coaduna integralmente com a forma e o método utilizados por ele. Nesse caso, figuras como Rui Costa e Jerônimo Rodrigues serão meros satélites dele. E Wagner não apenas sabe disso, como também alimenta isso.
