*por Fernando Duarte
Durante os discursos, todos os interlocutores ressaltaram a importância de Lula para o Brasil e para a América Latina. Um episódio de campanha explícita para o petista, que tenta se candidatar à presidência da República, mesmo estando sob risco de ser preso e com a perspectiva de não ter a candidatura registrada com base na Lei da Ficha Limpa. E tudo televisionado pela TVE, uma televisão estatal.
A imagem de Lula enquanto mártir foi reforçada em diversos momentos. “Lula é uma vítima das elites” foi apenas um dos mantras repetidos ao longo das jornadas. E em tom que não foi exclusivo de políticos brasileiros. Aliados como Manuel Zelaya, ex-presidente de Honduras, também engrossaram o caldo dos apoiadores. Em uma reunião de aliados, é natural que haja toda uma exaltação do legado do ex-presidente. Esperar diferente é, no mínimo, inocência.
O que não vale é travestir a campanha eleitoral de 2018 em um evento com a proposta do Fórum Social Mundial, um contraponto ao Fórum Econômico Mundial. O PT quer “empurrar” a candidatura de Lula independente da legislação brasileira. Os partidos do espectro político da esquerda até sinalizam carreiras-solo, a exemplo de Manuela D’Ávila (PCdoB) e Guilherme Boulos (PSOL). Ainda assim, o perfil monopolista que o Partido dos Trabalhadores adota há muito tempo no cenário nacional sinaliza que a sigla deve ter um candidato próprio mesmo que o ex-presidente seja impedido judicialmente.
O que Lula fez pelo Brasil foi relevante. O que ex-presidente começou a fazer desde que passou a insistir numa candidatura como a atual, nem tanto. Usar o Fórum Social Mundial para sedimentar uma candidatura dele no atual contexto político brasileiro é, no mínimo, inconsequente.
Se Lula precisa de um palanque, que o faça. E assuma que é campanha eleitoral.
*Este texto integra o comentário desta sexta-feira (16) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Excelsior FM, Clube FM e Irecê Líder FM.