O AMOR DE JOAQUIM

Otoniel Gondim

…Joaquim era o grande amor de Tereza, até o dia em que a chamou de Teca…

blogqspminutoomongeeoescorpiaoJoaquim teimava em não existir. Bastava-o Tereza existir. Se existir é respirar, ele existia. Respirava dia e noite Tereza. Alegrar entristecer, suar, gritar, pensar, Terezar era verbo intransitivo no imperativo. E o amar. Assim, Joaquim existia. E, por assim existir, orgulhava-se muito feliz. Mais ninguém. Afinal, quem tinha Tereza?

Filosofia, não explica. Religião, não suplica. A metafísica, não justifica. Só a natureza do apreço, apego, afeição, estímulos e ingredientes a todo instante alimentavam de fé, coragem, confiança, esperança, as bases desse amor. Joaquim tinha o dom de amar e isso o obrigava ao dever de usá-lo… Desde que com Tereza.

E Tereza ouvia murmúrios sensíveis. E deliciava-se de dedos carinhosos. E voava nas ondas daquela voz em suores de paixão. Joaquim e Tereza podiam, faziam, sorriam, grunhiam, eram amores.

Tudo simples, nas calmarias que os simplórios sensos dos felizes criam. Filhos, hum, daqui a pouco. Sabe, nada que pudesse dividir todos os encantos encarnados que aureolavam os seus mundos, sonhos e fantasias.

Até sair da espreita alguma coisa.

Misterioso, sombrio, algo taciturnamente foi avizinhando-se de Tereza. E, avolumando-se, foi surgindo um mundo diferente. O mundo de Tereza virara outro.

O mundo da mesmice dos dias e dos dias. Do marasmo reinante nas horas e nas horas. Do cotidiano repetitivo, incolor, insosso, silencioso, inodoro. Da perseverança angustiante de não mais acontecerem atos inovadores inesperados. Do novo sempre por vir e não vindo, das relações obrigatórias em climas cinzas, dos semblantes tênues das palavras sussurros. O amor de Tereza escorrendo baixo a abaixo.

Joaquim chorava, resmungava, soluçava, gemia, sofria por todos os líquidos, sólidos, gases, plasmas, pensamentos, emoções, razões, que havia em si.

Joaquim sentenciou: o amor é efêmero!

O difícil de entender: logo o de Tereza? Tão infinito, inacabável, tão tão.

E Joaquim escreveu-se poeta, leu e fez poemas, Viu-se artista, criou e fez obras. Ouviu-se músico, cantou e fez melodias. Um motivo, um, que raciocinasse a razão de Tereza. Buscara, buscara, buscara.

Joaquim concluiu: Tereza deixou de amá-lo no dia em que a chamou de Teca!

E, aliviado, suicidou-se.

JOAQUIM E O JUMENTO

Joaquim suicidou-se ao perder o amor de Tereza (achando que Tereza deixou de amá-lo no dia em que a chamou de Teca. Também, logo de Teca? É osso!) Não é que Joaquim ressuscitou? E livre de Tereza, sua Teca. Como tinha alguns imóveis e aplicações na surdina, fácil estabilizar-se financeiramente. Quis brincar de viver e foi. Tome shows, baladas, cabarés. Sim, livros, poemas, cinemas, apê beira-mar, lanchas, turismos. Joaquim sorrisos. Joaquim Sorrisos da Silva, intitulou-se. Novos amigos, amigas, amantes, putas, naturezas áureas envolvendo Joaquim.

Que belo retorno! De bom grado agradecia ao suicídio ter-lhe proporcionado tão linda nova vida. Embrenhou-se de mala e cuia nela. Queria mais o quê?

Qual o quê!

O tempo (inexorável até para Niemayer, João Doido, Romário, Seu Targino…) foi mostrando as caras.

“Tempo rei, oh! Tempo rei…” (Gil)

“Tempo, tempo, tempo, tempo vou lhe fazer um pedido…” (Caetano)

“Qual folha que passa no tempo…” (Roberto Carlos)

O que é o tempo? Aristóteles tentou, eis que tergiversou:

– O tempo é algo que se me perguntarem, eu não sei. Se não me perguntarem, eu sei.

Amou, certeza que amou querido leitor? O Bem-amado Odorico Paraguassu também. O tempo, Joaquim e Zé Finim.

Um dia Joaquim, dois dias Joaquim, três dias Joaquim. Pois que então, Joaquim enojando-se, enjoando dos dias. Imagine esperar os dias vindouros, na dúvida cruelíssima se o ressuscita mento é para sempre (daí, Jesus Cristo nunca ter morrido…)

Joaquim bufou-se, culpou-se pela volta, retou-se. Resolveu filosofar, eremitar, pensar liberto, masturbar o psíquico, sociologar o despojado. O mundo imundou-se em si. Caiu no desânimo das almas, corações, mentes brilhantes. Leitor, continua fidelíssimo nas linhas? És corajoso. Joaquim desafiou as obviedades: BOTOU NA CACHOLA DE COMPRAR UM JUMENTO!!!

Vai que comprou. Por diante em daqui, o jumento seria seu inseparável, ouviria das suas. Em troca, relinchos Brothers, gritos vogalíssimos A-E-I-O-U-YPSILONE! Prosperou-se inúmeros longos diletantismos JOAQUINÊS X JUMENTÊS. Orelhar, rabanar, bocejar, ciscar. Leitor, seu danado, sinto que vocifera. A bíblia, livros dos livros, diz que foi o quadrúpede a levar nas costinhas o cabeludo, o barbudo, bonito, revolucionário, socialista-fé Jesus Cristo. Tem mesmo cruz nas costas onde Gonzagão e Pe. Antonio Vieira juraram que o Filho de Deus fez vários pipiuzinhos. Aí. O jumento predestinado ficou tão avantajado. Talvez, por isso, divinou-se.

Joaquim, ah! Joaquim. Que homem é esse? Sai de baixo. O jumento, leitor, vosmecê metidinho a crítico, conhece a natureza do jumento? O jumento é jumento. Não é burro. É simplesmente, jumento.

Diálogos-monólogos intrínsecos, insofismáveis (tô chique hoje, amigo, no palavreado…), abstratistas, existencialistas, materialistas, tropicalistas, outros istas, foram descaindo, descambando, esvaindo-se no ostracismo da masmorra lenta, lerda sono, sem graça. Joaquim, ai ai ai ai ai que falava, esperniava, dramatizava, jumento nem aí pra mar de coisa. Cabisbaixo, mirando chão, vendo ao longe visão. Capim, pão doce, banho, nadinha de salvar. Recitou Charles Baudelaire, Rimbauld, Yeats, Leminsk, Paulo Marcondes, Chacal, Gullar, Carla Lorena, Cora Coralina, Drumond, Patativa do Assaré. Pôs que pôs músicas de Caetano, Gil, Chico, Tom Zé, Targino Gondim, Joãos (Gilberto e Sereno). Mostrou até a genialidade dos quadros de Coelhão, João Câmara, Di Cavalcanti. Apostou no conto O ALEPH de Jorge Luis Borges. Contratou as melhores jumentas. Inutil!

Joaquim entristeceu-se. Não mais aguentava tacanhas jumentices. Logo ele, filósofo, ressuscitado, Cristo contemporâneo, e nessa. Entendeu-se, lagrimando-se Tereza, traído novamente. Entretanto, leitor, por um jumento e logo o seu jumento? Juju?

Chocou-se, amargou-se, amargurou-se, enraivou-se, pensou-se: FIZ TUDO POR ESSE JUMENTO! JUMENTEI-ME POR ELE!

Piorou-se, febrou-se, gripou-se, navalhou-se no cérebro-carne, cuspiu-se fogo, desastrou-se pressurizado e voziferou: “Jumento, seu burro!” Juju bubu! Juju bubu! Juju bubu! Ainda ensaiando dancinhas e risadinhas – levou coices, tantos coices. Deitado, costelas ao sol, sangrando, contorcendo-se, coiçadas, enfaticoiçou-se: Juju, meu Ju, me perder como Teca é burrice, meu Burro!!! Levou coices, mais coices. E coices doem.

Enfim, a picada do fim.

Joaquim desolou-se, pensou-se Jesus Cristo, perdoou-se. E entre humanices e jumentices, aliviado de novo, queridíssimo leitor meu, SUICIDOU-SE.

Otoniel Gondim

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