Na última quarta-feira (19/08), o zoológico indiano Vantara (Greens Zoological Rescue and Rehabilitation Centre), localizado em Jamnagar, e fundado por Anant Ambani, filho do empresário mais rico do país, divulgou uma carta com compromissos, afirmando que a partir de agora irá priorizar resgate, reabilitação e iniciativas de conservação na Índia, suspender a importação de animais por doze meses, e ainda, investir em projetos nos países de origem dessas espécies.
Além da carta pública, Vantara também compartilhou um documento enviado ao representante da Índia na Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES), entidade que regula o comércio de espécies da fauna e flora. Nele, o centro indiano cita que busca uma “colaboração com as autoridades brasileiras em apoio ao programa de reintrodução, reprodução para conservação e recuperação da ararinha-azul (Cyanopsitta spixii).”
Atualmente, entre os milhares de animais que vivem em Jamnagar estão 26 ararinhas-azuis. Elas foram enviadas para lá em 2023, pela Association for the Conservation of Threatened Parrots (ACTP), um criadouro alemão que, na época era parceiro do governo brasileiro no programa de reprodução em cativeiro e reintrodução da ararinha-azul. Todavia, o Brasil não foi consultado sobre a transferência – mesmo as araras não tendo nascido em solo brasileiro, a espécie é endêmica da Caatinga baiana, declarada extinta na natureza, e o governo tem soberania sobre ela.
Naquele ano, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), representante CITES no Brasil, e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), coordenador do programa da ararinha-azul, afirmaram que tinham pedido a repatriação das aves.
Diante da afirmação do Vantara sobre uma possível colaboração com o Brasil, o Conexão Planeta entrou em contato com a assessoria de imprensa do ICMBio para confirmar a informação. Em retorno, recebemos a seguinte nota:
“Representantes do Vantara procuraram o Instituto Chico Mendes (ICMBio/MMA) com o propósito de iniciar tratativas voltadas à celebração de um eventual acordo relacionado à matéria em questão. Em resposta à manifestação apresentada, foi informado que a análise de qualquer proposta estaria condicionada ao atendimento de premissas consideradas essenciais para o avanço das negociações.
Nesse sentido, foi indicado como requisito fundamental, a repatriação das 26 ararinhas-azuis que foram encaminhadas de forma irregular para a Índia. Ademais, ressaltou-se a necessidade de participação direta das autoridades indianas em quaisquer discussões, negociações ou instrumentos que venham a ser formalizados no âmbito dessas tratativas.”
O Conexão Planeta também enviou um e-mail para Vantara, pedindo maiores detalhes sobre uma eventual colaboração, e se as aves seriam repatriadas, mas está no aguardo de uma resposta.
Após muitas polêmicas, os compromissos
Desde que Vantara foi inaugurado, em 2025, com a presença inclusive do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, que posou para fotos segurando uma ararinha-azul, o zoológico foi alvo de uma série de denúncias de organizações internacionais, e reportagens, como a do jornal alemão Süddeutsche Zeitung e do próprio Conexão Planeta, sobre a origem dos animais adquiridos.
Em agosto do ano passado, a Suprema Corte da Índia iniciou uma “investigação especial” sobre o caso. Todavia, após duas semanas, a justiça declarou não ter encontrado irregularidades, mesmo tendo o governo do Brasil afirmado que houve uma transação comercial entre a ACTP e Vantara na transferência das ararinhas-azuis – o que seria ilegal.

Foto: reprodução Instagram Vantara
Com o documento divulgado esta semana, Ambani parece estar focado em mudar a imagem de Vantara. O zoológico gigantesco, que não é aberto ao público, só recebe convidados eventuais e influencers.
“Vantara opta por adotar padrões que vão além das exigências legais, visando construir confiança e credibilidade junto às autoridades nacionais, às Partes da CITES, ao Comitê Permanente e ao Secretariado, bem como à comunidade de conservação em geral, por meio do fortalecimento significativo da transparência, da governança e da diligência prévia em todas as suas operações”, diz a carta de compromissos.
“À medida que crescemos, também aprendemos. Ouvimos atentamente as críticas e sugestões feitas por muitas vozes e as acolhemos com o espírito com que foram oferecidas: como uma oportunidade de melhoria. Acreditamos cada vez mais que, sempre que for possível apoiar efetivamente os animais em seus próprios países, nossos recursos devem ser deslocados em vez dos animais”, afirma Vivaan Karani, CEO do Vantara. “As capacidades desenvolvidas na Índia podem apoiar, de forma crescente, autoridades de vida selvagem, veterinários e programas de conservação nos países de ocorrência dessas espécies ao redor do mundo.”
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