O psiquiatra baiano Antonio Pedreira, com mais de 45 anos de atuação na área de saúde mental, avaliou, em entrevista ao BNEWS, o caso de Mateus da Costa Meira, ex-estudante de Medicina condenado pelo ataque a tiros que matou três pessoas e deixou nove feridas em um cinema de São Paulo, em 1999.
Solto pela Justiça da Bahia em 2024, Mateus voltou ao convívio social e passou a frequentar locais como cafés, livrarias e salas de cinema do Shopping Barra, em Salvador, situação que gerou preocupação entre frequentadores e lojistas.
Para o especialista, a reinserção de pessoas com histórico de crimes violentos precisa ocorrer com acompanhamento e monitoramento. Segundo ele, características descritas em avaliações psicológicas e psiquiátricas podem indicar a necessidade de atenção especial no processo de retorno à sociedade.
Ao comentar a reação de medo entre frequentadores do Shopping Barra, o psiquiatra afirmou que a preocupação não deve ser tratada como algo individual ou irrelevante. Segundo ele, shoppings são espaços frequentados por pessoas em momentos de lazer e convivência familiar, e a presença de alguém com histórico de violência pode gerar insegurança em quem circula pelo local.
Além disso, ao avaliar o histório atribuído a Mateus Meira, o psiquiatra afirmou que, caso confirmadas as características descritas nos laudos e relatos apresentados, o comportamento poderia se aproximar de um quadro de personalidade psicopática.
“Pela descrição apresentada, ele se enquadraria nesse tipo de personalidade psicopática. A pessoa comete um determinado delito ou até um crime, tira a vida de outra pessoa e não demonstra arrependimento. Às vezes, chega a apresentar comportamentos que parecem contraditórios, como demonstrar uma aparente reabilitação e, posteriormente, voltar a praticar atos violentos. Na psicopatologia, isso é tratado como psicopatia social. São pessoas que podem apresentar uma conduta passivo-agressiva: aparentam ser cordatas, submissas e resignadas, mas podem revelar tendências vingativas e destrutivas”, afirmou.
Mateus foi condenado pelo ataque ocorrido em uma sala de cinema em São Paulo e, durante o período em que esteve preso, também teve um episódio de violência contra outra pessoa, segundo informações apresentadas durante a entrevista.
“A finalidade de uma prisão não serve para punir a pessoa só, senão era feita ali, antigamente, o talião, dente por dente, olho por olho”, afirmou.
O médico também afirmou que a liberdade de uma pessoa deve considerar o impacto sobre outras pessoas. “Então, volto para o paradigma da justiça, de que a liberdade de um começa onde termina a do outro e vice-versa. Termina onde começa a do outro. Tem a ver, reciprocidade”, declarou.
“Se essa pessoa tem um passado de criminalidade manifesta e características que o laudo aponta como antissociais, com traços passivo-agressivos e personalidade psicopática, ela não pode ser tratada igual a uma pessoa que nunca fez nada a ninguém”, afirmou.
Segundo ele, pessoas com esse perfil precisam de acompanhamento após a saída do sistema prisional. “Ele precisa ser custodiado, acompanhado por alguém, para ser monitorado, como uma pessoa de risco potencial para o maior bem que a gente tem: a nossa vida”, disse.
Segundo ele, manuais de referência da psiquiatria, como o DSM-III, DSM-IV e DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), mostram que esses quadros podem apresentar diferentes níveis de intensidade. Ele citou a chamada curva de Gauss, em que há uma variação entre casos mais leves, intermediários e aqueles considerados de maior gravidade.
“Essa resposta é difícil hoje na psiquiatria, por conta de que a gente sabe de que o ser humano é capaz de responder maravilhosamente a certos tratamentos e outros, simplesmente, não quer nem saber”, afirmou.
