Confesso que, nestes dias de tantas pesquisas pré-eleitorais, não consegui deixar de fazer uma comparação um tanto curiosa. Ao abrir os noticiários, pensei comigo mesmo: que verdadeira salada de frutas!
Mas logo corrigi o pensamento.
Na verdade, as saladas de frutas são muito melhores. São refrescantes, saborosas, saudáveis e fazem bem ao organismo. Já algumas pesquisas, dependendo de quem as interpreta, acabam provocando mais indigestão do que nutrição.
Vivemos um período em que praticamente todos os dias surge um novo levantamento. Um instituto aponta um cenário; outro apresenta números diferentes; um terceiro traz uma leitura distinta. Para quem acompanha a política, é como se cada cozinheiro colocasse um ingrediente diferente na mesma receita.
Não estou afirmando que as pesquisas não tenham importância. Muito pelo contrário. Quando realizadas com metodologia séria, elas cumprem um papel relevante ao retratar o sentimento do eleitor naquele exato momento. O problema começa quando alguns passam a tratá-las como se fossem o resultado definitivo da eleição.
A política, felizmente, não é uma fotografia; ela é um filme. E, como todo bom filme, o roteiro pode mudar até a cena final.
Quem acompanha eleições há algumas décadas, como eu, sabe muito bem disso. Quantas vezes vimos candidatos considerados imbatíveis perderem força? Quantos outros, que pareciam não ter qualquer chance, cresceram ao longo da campanha e surpreenderam nas urnas? A história política brasileira está repleta desses exemplos.
Por isso, sempre procuro olhar as pesquisas com serenidade. Elas informam, mas não decidem. Elas indicam tendências, mas não substituem a consciência do eleitor. A verdadeira pesquisa acontece silenciosamente no coração e na mente de cada cidadão, quando ele compara histórias de vida, avalia propostas, observa atitudes e decide em quem confiar.
Enquanto isso, continuo preferindo uma boa salada de frutas. Ela reúne banana, mamão, manga, maçã, uva, melão e tantas outras delícias. Cada fruta mantém sua essência, mas todas contribuem para algo saudável.
Na democracia também deveria ser assim. A diversidade de ideias fortalece o debate, desde que haja respeito às diferenças e compromisso com o bem comum. O que não faz bem é transformar adversários em inimigos ou reduzir toda uma campanha a gráficos, percentuais e manchetes.
No final das contas, pesquisas são importantes, mas não elegem ninguém.
Quem elege é o povo.
E o povo merece conhecer muito mais do que números. Merece ouvir propostas, conhecer currículos, analisar realizações, comparar projetos e escolher com liberdade aquele que considera mais preparado para representá-lo.
As pesquisas passam.
Os comentários passam.
As campanhas terminam.
Mas o voto consciente permanece como a maior expressão da democracia.
Sigamos. As urnas nos aguardam para a grande tomada de decisão. Afinal, é nelas – e não nas pesquisas – que a vontade soberana do povo se transforma em realidade.
*Professor universitário aposentado e memorialista!