PP e União Brasil fecham neutralidade, enquanto Republicanos resiste a integrar a coligação de Flávio
A indicação do Partido Progressista (PP) de permanecer neutro no primeiro turno da disputa presidencial representa um revés para a estratégia do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que trabalhava para chegar ao início oficial da campanha com uma ampla aliança de centro-direita. Além da influência do cenário negativo que ronda o presidenciável, enfraquecido por diversas crises, integrantes da cúpula da legenda, assim como do União Brasil, afirmam que a escolha por não formalizar apoio também guarda relação com o cenário político que será desenhado a partir de 2027.
A avaliação de integrantes das siglas é que um apoio formal agora reduziria a capacidade de negociação com o futuro governo. Com uma das maiores bancadas do Congresso, União Brasil e PP querem preservar interlocução com qualquer vencedor da disputa presidencial e chegar ao próximo ciclo político com margem para negociar espaço na Esplanada, influência sobre a pauta legislativa e as eleições para as presidências da Câmara dos Deputados e do Senado.
A posição da federação foi consolidada depois de uma reunião da cúpula do PP, realizada na noite de terça-feira, em Brasília. Com a decisão do PP, o União Brasil também adotará neutralidade, já que as duas siglas formalizaram uma federação partidária.
Até agora, a campanha de Flávio ainda tentava reverter a posição da federação. Um dos movimentos foi oferecer à senadora Tereza Cristina (PP-MS) a vaga de vice na chapa presidencial, que recusou o convite feito pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto. Segundo aliados, ela prefere concentrar seus esforços na disputa pela presidência do Senado em 2027.
Além da oferta da vice não ter surtido efeito, a relação entre Flávio e parte da direção do PP também se desgastou nas últimas semanas. Interlocutores de Ciro Nogueira afirmam que o senador ficou incomodado com o distanciamento adotado por Flávio depois da operação da Polícia Federal (PF) que teve o presidente do PP como alvo na investigação envolvendo o Banco Master. Na avaliação de integrantes da legenda, o episódio enfraqueceu a interlocução entre os dois justamente quando o PL buscava consolidar uma aliança nacional.
A neutralidade, porém, vale por ora apenas para o primeiro turno, enquanto eventual mudança de ideia no segundo turno continua em aberto. A intenção é esperar o resultado das urnas para avaliar quais candidatos chegarão fortalecidos e quem demonstrará melhores condições de construir uma base de sustentação no Congresso.
Na avaliação desses dirigentes, antecipar um apoio agora diminuiria justamente o valor político das siglas na reta final da disputa.
O Republicanos caminha na mesma direção e, embora as conversas com a campanha de Flávio continuem e uma decisão formal ainda não tenha sido tomada, a legenda têm indicado preferência por também permanecer neutra.
A cautela do Republicanos ocorre apesar da proximidade entre o partido e a campanha de Flávio. A economista Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal e recém-filiada à legenda, continua sendo o nome preferido do senador para ocupar a vaga de vice-presidente.
As conversas entre PL e Republicanos envolvem ainda acordos regionais. Integrantes das duas legendas discutem apoio cruzado em disputas estaduais e a possibilidade de o Republicanos indicar o vice na chapa presidencial. Mesmo assim, dirigentes do partido reconhecem que persistem dificuldades para um entendimento nacional e avaliam que o cenário seguirá indefinido até o avanço da campanha.
Há ainda outro fator passou a pesar nas conversas com o Centrão. Segundo interlocutores, as declarações recentes de Flávio questionando a segurança das urnas eletrônicas provocaram incômodo entre lideranças do grupo político, que passaram a avaliar que a tentativa do senador em ser apresentado como um nome capaz de adotar um perfil mais moderado do que o do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) já não está mais no foco da pré-campanha.
Nos bastidores, interlocutores afirmam que as manifestações sobre o sistema eleitoral reforçaram a percepção de que Flávio tem retomado o discurso do pai justamente no momento em que dirigentes dessas siglas esperavam uma candidatura menos radical.