Sem dendê não tem acarajé e sem simpatia não tem boa clientela. É assim que Luciene Almeida, 45 anos, encara a vida de baiana do acarajé. Vestida com as cores da bandeira brasileira e com um batom rosa que gritava a sua vaidade, foi conversando e me contando sua história enquanto despachava um cliente e outro.
Ela aprendeu a fazer a iguaria baiana com Cira, uma das mais famosas e antigas vendedoras de acarajé da Bahia, que por muito tempo foi vizinha de sua mãe no bairro de Itapuã. Aos 18 anos decidiu ser baiana do acarajé e começou a vender uma das comidas típicas mais famosas de todo mundo nas principais praias da cidade.
Sua maior lembrança dessa época é “de quando abanava o fogo de carvão”. O esforço não foi em vão. Luciene queria trabalhar para ajudar e dar orgulho a sua mãe, já que, naquela época, a educação era pouco democrática.
Hoje, 27 anos depois, com dois filhos e ainda morando em Itapuã, Luciene é funcionária de Cira e trabalha em um quiosque no bairro do Rio Vermelho. “A senhora se imagina fazendo outra coisa?”, perguntei e ela imediatamente respondeu: “não consigo”.
Sem deixar de responder minhas indagações, a baiana arrumava espaço para me apresentar todos os petiscos que ela vendia em seu tabuleiro. Cocada puxada, passarinha, cocada, abará, bolinho de estudante e o famoso acarajé, com o qual fui carinhosamente presenteada no final da conversa.
Luciene fala do trabalho com muito amor, não precisa conversar muito para perceber. Basta observar. Todo cliente que chega é recebido com um sorriso aconchegante e um sotaque marcante. A baiana de Itapuã que trabalha no Rio Vermelho já deve ter marcado a vida de muita gente que passou por ali, exemplo disso são os famosos que ela faz questão de contar que foram em seu quiosque e retornaram outras vezes.
Outra coisa que Luciene fez questão de me contar é que está aprendendo a falar inglês com o grande número de estrangeiros no período da Copa do Mundo. Quando me diz o que já conseguiu aprender, o tom de voz muda e dá para perceber o orgulho e emoção de quem nunca imaginou, um dia, dominar outro idioma.
Não é à toa que dizem que os baianos são ‘arretados’. É conhecendo gente como Luciene que se prova tamanha inverdade do estereótipo de baiano preguiçoso. Se começar a trabalhar aos 18 anos, “viajar” 40 km diariamente até o trabalho e atender clientes durante 12 horas por dia para criar dois filhos é ser preguiçoso, então sim, podemos chamar Luciene de ‘preguiçosa’.
