Por Rinaldo Remígio*
Alguém já disse, e eu confirmo: “O trabalho dignifica o ser humano.”
Não importa a formação acadêmica, a profissão exercida ou a função desempenhada. Todo trabalho honesto merece respeito. Do agricultor que cultiva a terra ao médico que cuida da saúde; do pedreiro que levanta paredes ao professor que transmite conhecimento; da trabalhadora doméstica ao empresário que investe, assume riscos e gera empregos — todos são importantes para o desenvolvimento da sociedade.
E falo sobre trabalho com a autoridade de quem começou a trabalhar aos 14 anos de idade. Não tenho vergonha da minha origem; muito pelo contrário, tenho orgulho dela. Sei de onde vim, conheço as dificuldades que enfrentei e sei quanto o trabalho foi importante para tudo aquilo que consegui construir ao longo da vida.
Aprendi cedo que as conquistas possuem um preço e que, normalmente, esse preço se chama trabalho, esforço, disciplina e perseverança.
Quando falamos em trabalho, precisamos também falar das empresas e dos empreendedores. São eles que, acreditando no futuro, investem recursos, enfrentam dificuldades, pagam impostos, assumem responsabilidades e mantêm abertas as portas que proporcionam emprego e renda a milhões de famílias.
Sem empresas fortes, dificilmente teremos empregos fortes. E sem empregos, não haverá desenvolvimento social sustentável.
Por isso, considero o local de trabalho quase sagrado. É ali que muitas pessoas passam boa parte de suas vidas. É dali que sai o salário que coloca o alimento na mesa, paga a escola dos filhos, compra medicamentos, realiza sonhos e proporciona dignidade às famílias.
Quem recebe uma oportunidade de trabalho precisa compreender o valor daquela porta que se abriu.
Existem trabalhadores que valorizam o próprio suor. São pontuais, responsáveis, dedicados e comprometidos. Vestem a camisa da empresa não por submissão, mas porque compreendem que existe uma relação de reciprocidade: a empresa precisa do trabalhador, assim como o trabalhador precisa de empresas saudáveis e capazes de gerar oportunidades.
Entretanto, precisamos reconhecer que nem sempre isso acontece.
Há pessoas que procuram emprego, pedem uma oportunidade e, poucos dias depois de admitidas, começam a demonstrar desinteresse, falta de compromisso e o conhecido “corpo mole”. Algumas parecem esquecer que aquele emprego tão desejado anteriormente passou a ser a fonte de sustento de sua própria família.
É preciso compreender que um emprego não nasce do nada. Antes daquela carteira assinada, alguém precisou ter uma ideia, abrir uma empresa, investir dinheiro, assumir riscos, conquistar clientes, pagar impostos e enfrentar inúmeras dificuldades para manter o negócio funcionando.
Também precisamos refletir sobre aqueles que, por receberem algum auxílio ou benefício social, preferem trabalhar sem registro para não perder essa renda. Os programas sociais são importantes e indispensáveis para proteger quem realmente necessita. Entretanto, devem representar proteção nos momentos de dificuldade e, sempre que possível, uma ponte para a autonomia proporcionada pelo trabalho, e não um estímulo à permanência na informalidade.
E aqui faço outra reflexão.
Nos períodos eleitorais, assistimos a uma verdadeira corrida de promessas. Fala-se em isenção de IPVA para determinadas categorias de veículos, perdão ou renegociação de dívidas, descontos que podem chegar a 100% sobre multas e juros de financiamentos estudantis, entre tantas outras propostas apresentadas como benefícios à população.
Algumas dessas medidas podem até possuir justificativa social ou econômica e merecem ser analisadas individualmente. O que me preocupa é quando a política pública passa a transmitir a impressão de que tudo pode ser perdoado, subsidiado ou simplesmente pago pelo Estado.
Por que não colocarmos com a mesma força no centro do debate o incentivo ao trabalho, à qualificação profissional, ao primeiro emprego, ao empreendedorismo e às empresas que geram postos de trabalho?
Por que não premiar também quem produz, quem emprega, quem mantém suas obrigações em dia e quem luta diariamente para sobreviver sem depender permanentemente do poder público?
Não sou contra ajudar quem verdadeiramente precisa. Uma sociedade justa não pode abandonar os mais vulneráveis. Mas existe uma diferença importante entre oferecer proteção social e transformar benefícios em instrumento de conveniência política.
E existe uma verdade que nem sempre é lembrada quando ouvimos determinadas promessas:
o dinheiro público não nasce nos cofres do governo.
Quando o Estado concede um benefício, perdoa determinada obrigação ou cria uma nova despesa, alguém precisa financiar essa decisão direta ou indiretamente.
E sabe quem está entre aqueles que pagam essa conta?
Você. Eu. Todos nós, contribuintes brasileiros.
Por isso, políticas públicas precisam ser acompanhadas de responsabilidade, critérios e transparência. Governar não deveria significar simplesmente distribuir benefícios. Deveria significar, sobretudo, criar condições para que as pessoas possam trabalhar, produzir, empreender e conquistar sua própria independência.
Naturalmente, essa responsabilidade não pertence apenas ao trabalhador ou ao poder público.
O empregador também precisa fazer a sua parte: cumprir a legislação, respeitar os direitos trabalhistas, proporcionar condições dignas, remunerar corretamente e reconhecer os bons profissionais. Não existe relação de trabalho saudável sem respeito dos dois lados.
Empresa e trabalhador não deveriam ser vistos como adversários. São partes de uma mesma engrenagem.
A empresa gera oportunidades; o trabalhador produz, atende, cria e ajuda a empresa a crescer. A empresa prosperando pode gerar mais empregos; o trabalhador valorizado tende a produzir melhor.
Precisamos abandonar a ideia de que valorizar o empresário significa diminuir o trabalhador, ou que defender o trabalhador significa combater quem empreende. O Brasil precisa dos dois.
Depois de uma vida inteira dedicada ao trabalho, continuo acreditando numa verdade simples: nenhuma política pública substitui definitivamente a dignidade proporcionada pelo trabalho.
O auxílio pode socorrer.
O benefício pode ajudar.
O governo pode criar oportunidades.
Mas é o trabalho que proporciona autonomia, sustenta famílias e permite que cada pessoa seja protagonista da própria história.
Por isso, deixo uma reflexão a você que me lê:
Estamos construindo uma sociedade que estimula as pessoas a produzir e conquistar sua independência ou estamos, pouco a pouco, ensinando que sempre haverá alguém para pagar a conta?
O Brasil precisa olhar para quem trabalha e também para quem empreende, investe, produz, paga impostos e gera emprego e renda.
Que nunca faltem empresas dispostas a investir.
Que nunca faltem trabalhadores dispostos a trabalhar.
E que nunca nos faltem responsabilidade, respeito, reconhecimento e consciência de que toda conta pública, cedo ou tarde, chega a alguém.
E uma parte dela, meu caro leitor, chega até você.
Viva o trabalhador brasileiro!
Viva quem empreende, produz e gera emprego e renda neste país!
*Professor universitário aposentado, administrador, contador e mestre em economia!