O governo do Reino Unido reagiu nesta sexta-feira (4) às declarações do presidente da Argentina, Javier Milei, que na véspera anunciou a construção de uma base naval na Terra do Fogo, no extremo sul do país, em meio à disputa pela soberania das Ilhas Malvinas.
O ultraliberal também afirmou que vai punir empresas que planejam iniciar, nos próximos meses, a exploração de petróleo na região. As ilhas do Atlântico continuam sendo alvo de uma disputa de soberania mais de 40 anos após a guerra travada pelos dois países em 1982, que terminou com a rendição da Argentina.
“As Falklands são britânicas porque os habitantes escolhem ser britânicos”, respondeu o ministro da Defesa do Reino Unido, Wes Streeting, nesta sexta, usando o nome adotado pelos britânicos para o território. No post, ele afirmou que as falas de Milei dizem mais sobre a política interna da Argentina do que sobre a situação do arquipélago.
“Nosso compromisso com as Malvinas é absoluto e inabalável”, acrescentou.
A disputa em torno das Malvinas ganhou maior intensidade nos últimos dias após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçar intervir. Assim como a maioria dos países ocidentais, Washington reconhece que o Reino Unido administra de fato o arquipélago, mas nunca se pronunciou estritamente sobre a sua soberania, reivindicada pela Argentina.
O governo Trump estaria disposto a revisar essa posição, a fim de pressionar o Reino Unido a aumentar seus gastos militares. Em uma entrevista à GB News, o republicano ainda deu a entender que não ajudaria o Reino Unido em um eventual conflito futuro com a Argentina pelas Malvinas. O americano queixou-se de falta de apoio britânico na guerra no Irã.
“No mundo correm ventos de mudança favoráveis à nossa reivindicação”, disse Milei em cadeia nacional, referindo-se ao seu aliado americano. Segundo o presidente argentino, a declaração de Trump representa uma ameaça que “não é inócua”.
Além das falas de Trump, a revelação de um projeto de exploração petrolífera britânico-israelense perto do arquipélago gerou indignação na Argentina.
Milei anteriormente defendia a diplomacia como a melhor forma de buscar a reivindicação argentina sobre as Malvinas, mas, com a previsão de novas perfurações de petróleo nos próximos meses e as repetidas menções de Trump às ilhas, ele adotou um tom mais confrontador.
Milei disse que os habitantes das ilhas “não têm um direito legítimo à autodeterminação”. Segundo o ultraliberal, a construção da base naval também ajudará a fortalecer a presença militar em uma região considerada estratégica para o futuro do país.
O campo de petróleo Sea Lion, localizado a cerca de 225 quilômetros ao norte das Malvinas, é operado pela israelense Navitas Petroleum, listada na bolsa de Tel Aviv, e também tem entre seus acionistas a britânica Rockhopper Exploration, listada em Londres.
Em 2010, quando as primeiras perfurações encontraram o campo, a Argentina afirmou que a atividade era ilegal. Estima-se que o campo contenha 1,7 bilhão de barris de petróleo, o que faz da descoberta uma das mais importantes em termos globais.
As ações da Rockhopper caíram 6% na manhã desta sexta-feira, enquanto as da Navitas recuaram 2%. As empresas afirmaram em comunicado que possuem licenças válidas para a exploração de petróleo.
A disputa pela soberania das ilhas é reconhecida oficialmente por uma resolução da ONU de 1965, que pede aos dois países que não tomem decisões unilaterais e resolvam o impasse pela via diplomática.
“A questão Malvinas serve a Trump para pressionar o Reino Unido, para que cumpra as suas demandas em relação ao financiamento da Otan e à colaboração na guerra no Irã”, disse à AFP Tomás Mugica, cientista político e diretor do Centro de Estudos Internacionais da Universidade Católica Argentina.
Por isso, segundo ele, “é necessário ser bastante cuidadoso quanto às expectativas” de uma mudança na postura americana.
“Se há um conflito, Trump interfere”, afirmou Juan Battaleme, cientista político que foi secretário de Assuntos Internacionais para a Defesa do governo de Milei. Para Battaleme, a postura é parte da chamada “doutrina Donroe” de Trump, sua versão da política expansionista do século 19 conhecida como Doutrina Monroe.
Milei aborda o tema em um momento de queda de popularidade, a pouco mais de um ano das eleições nas quais buscará um segundo mandato. Pesquisas recentes apontam que 34% dizem aprovar o governo, enquanto 55% afirmam desaprová-lo.
“Existe um consenso muito amplo no conjunto da população, mas também entre as elites políticas, quanto à legitimidade da reivindicação de soberania por parte da Argentina”, disse Mugica.