Por Rinaldo Remígio * –
Ao trocar o projeto do Senado pela disputa à Câmara Federal, o ex-prefeito de Petrolina demonstra que, na política, determinação também significa saber reorganizar a caminhada.
A política brasileira precisa de pessoas determinadas. Homens e mulheres que, independentemente de suas agremiações partidárias, compreendam que partidos são instrumentos da democracia, mas não podem estar acima dos interesses da sociedade.
É sob essa perspectiva que vejo a decisão de Miguel Coelho de disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados.
Dias atrás, escrevi sobre sua saída da disputa pelo Senado. Naquele momento, considerei sua decisão um gesto de maturidade política. Miguel poderia ter insistido num projeto pessoal, provocado divisões e criado dificuldades dentro do grupo político do qual participa. Preferiu dialogar e preservar uma construção maior.
Agora, ao anunciar sua candidatura a deputado federal, mostra que recuar de uma posição não significa abandonar a caminhada.
Miguel muda a rota, mas continua na estrada.
E política também é isso.
Quem imagina que a vida pública é construída apenas com vitórias provavelmente conhece pouco da própria história política brasileira. Grandes lideranças perderam eleições, mudaram projetos, fizeram composições, enfrentaram adversidades e precisaram começar novamente.
O importante é saber por que continuar.
Miguel tem algo importante para apresentar aos pernambucanos: a experiência administrativa construída em Petrolina.
Quem acompanhou sua gestão sabe da transformação experimentada pela cidade. Petrolina tornou-se um verdadeiro canteiro de obras e consolidou ainda mais sua condição de protagonista do desenvolvimento do interior nordestino. Naturalmente, nenhum governo está acima de críticas. Democracia pressupõe divergências. Mas também exige reconhecer resultados quando eles existem.
É justamente essa experiência que Miguel pretende levar para Brasília.
Sua candidatura também fortalece o palanque da governadora Raquel Lyra, de quem será aliado na disputa pela reeleição. É uma composição política que reposiciona forças e demonstra que a eleição pernambucana não será construída apenas a partir da capital.
E aqui está um ponto que considero fundamental.
O Sertão não pode continuar sendo lembrado apenas pelo tamanho do seu território ou pelo percentual de votos que possui.
O Sertão produz lideranças.
Produz ideias.
Produz riqueza.
E também precisa produzir decisões.
Durante décadas, consolidou-se a impressão de que, para alcançar dimensão estadual, uma candidatura precisaria nascer politicamente no Recife e depois caminhar em direção ao interior. Por que não o contrário?
Por que uma liderança construída em Petrolina não pode atravessar o Sertão, chegar ao Agreste, à Zona da Mata, à Região Metropolitana e apresentar um projeto para todo Pernambuco?
Miguel Coelho já tentou esse caminho quando disputou o Governo do Estado. Não venceu aquela eleição, mas ampliou seu conhecimento de Pernambuco e tornou seu nome conhecido muito além das margens do São Francisco.
Agora começa outro capítulo.
Brasília exigirá uma atuação diferente daquela exercida na Prefeitura. Um deputado federal precisa dialogar, articular recursos, participar das grandes discussões nacionais e, sobretudo, compreender que representa todo o Estado.
Pernambuco necessita dessa capacidade de articulação.
Precisamos de representantes que conheçam os problemas da capital, mas que também saibam o que significa conviver com as dificuldades do interior; que compreendam a importância do desenvolvimento econômico, da geração de empregos, da infraestrutura, da irrigação, da educação e das políticas capazes de diminuir as desigualdades entre as regiões.
Não se trata, portanto, de defender uma sigla.
Política não deveria ser uma guerra permanente entre camisas partidárias.
Podemos divergir de Miguel.
Podemos divergir de Raquel Lyra.
Podemos divergir de qualquer liderança política.
Isso faz parte da democracia.
O que não podemos é transformar nossas preferências partidárias numa venda que nos impeça de reconhecer competência, determinação ou bons resultados simplesmente porque foram produzidos pelo lado político do qual não fazemos parte.
O Brasil já perdeu tempo demais nessa guerra.
Miguel Coelho escolheu continuar.
Deixou a perspectiva do Senado, reorganizou seu projeto e decidiu disputar a Câmara Federal. O eleitor pernambucano decidirá, soberanamente, nas urnas se deseja vê-lo em Brasília.
Mas sua decisão já oferece uma reflexão importante para quem acompanha a política:
nem toda mudança de caminho representa uma derrota. Às vezes, mudar a rota é justamente o que permite continuar avançando.
Miguel segue.
Petrolina continuará observando.
O Sertão também.
E Pernambuco decidirá.
Porque, no final, partidos são importantes, cargos são passageiros e eleições terminam.
Mas a determinação de continuar trabalhando e a obra que cada homem público deixa pelo caminho são aquilo que a história verdadeiramente se encarrega de julgar.
*Professor universitário aposentado!