Convenção partidária será o segundo encontro de Flávio e Milei em pouco menos de um mês
Marcada para este sábado, a convenção do PL que vai oficializar a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República vai contar com uma presença incomum a esse tipo de evento: a do presidente argentino Javier Milei.
A demonstração de apoio compõe uma das estratégias do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro para ganhar fôlego em meio a onda de escândalos e controvérsias que interromperam o bom momento que o senador do Rio vivia nas pesquisas eleitorais até maio.
Entre posts nas redes sociais e encontros presenciais, Flávio tenta se atrelar à outra onda, a da direita, que elegeu, nos últimos meses, presidentes no Chile, Colômbia e Peru.
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Na noite desta sexta-feira, o pré-candidato publicou um vídeo feito com Inteligência Artificial para reforçar o vínculo com o aliado argentino. Feita no Instagram, a publicação mostra a dupla chegando em caças no evento deste sábado. Veja abaixo:
A convenção partidária será o segundo encontro de Flávio e Milei em pouco menos de um mês. No final de junho, dias após a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro abrir uma crise política ao publicar vídeos com críticas ao senador e os irmãos Eduardo e Carlos Bolsonaro, o pré-candidato e o argentino encontraram-se na Quinta de Olivos, em Buenos Aires, residência oficial da presidência. Nas redes, Milei assinalou apoio ao brasileiro: “Vem aí a maré azul para o Brasil pelas mãos de Flávio Bolsonaro”, escreveu.
No dia anterior, o senador já havia referenciado as vitórias da direita no continente ao discursar na abertura do Latin America Chairman’s Conference , evento pró-Israel na capital argentina. Na fala, Flávio atribuiu a Milei o início da “onda azul”, acrescentou que o Brasil seria o próximo da região a entrar nela e falou do combate ao narcotráfico ao citar o Escudo das Américas, iniciativa do governo do americano Donald Trump, que agrega governos de direita.
— Enquanto os vizinhos se uniam para combater o crime, o governo do meu país seguia na direção oposta — disse Flávio, relacionando as viradas à direita ao alinhamento com os EUA — O Brasil mobilizou-se no mais alto nível para pedir aos Estados Unidos que não designassem as duas maiores facções brasileiras, o PCC e o Comando Vermelho, como terroristas.
O encontro com Milei em junho não foi o primeiro. Em março, os dois estiveram juntos na posse do presidente do Chile, Antonio Kast, onde Flávio agradeceu ao argentino por conceder asilo político a foragidos do 8 de janeiro. O convite de Kast a Flávio, já definido como nome bolsonarista para a disputa presidencial, fugiu do protocolo, e, após o adversário anunciar que iria à posse do chileno, Lula desistiu da viagem.
Na avaliação do professor de Relações Internacionais e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha Maurício Santoro, a estratégia do senador de se associar a candidatos bem sucedidos na vizinhança oferece vantagens:
— É algo que reforça a candidatura ao mostrar que ele não estaria sozinho, mas seria parte de um movimento — disse Santoro, que destaca a ida de Flávio à posse de Kast como um episódio fora do padrão diplomático — Estamos diante de um quadro político que é diferente do habitual.
O professor lembra, que ao longo dos últimos anos, os principais nomes da direita no continente usaram de eventos internacionais para estabelecer contatos. Em 2022, quando ainda não estavam eleitos, Milei e Kast foram à Campinas participar da CPAC Brasil, versão brasileira do congresso americano conservador organizado pelo então deputado federal Eduardo Bolsonaro. Em 2024, o chileno e o argentino compareceram a outra edição do encontro, desta vez em Balneário Camboriú. Naquele mesmo ano, Eduardo representou a família na CPAC Buenos Aires.
— Eles acumularam capital político no Brasil e no circuito da direita internacional. Segue um processo de construção que não é novo e vem desde as primeiras CPAC. Primeiro com o Eduardo, depois o Jair e agora o Flávio — diz o professor de Relações Internacionais Fábio Andrade, da ESPM.
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Andrade afirma que Milei, egresso do movimento anarcocapitalista que defende uma máxima redução do Estado, tornou-se um ícone da direita latino-americana ao encarnar ideais antissistema. Ao longo da pré-campanha, Flávio tem emulado elementos do estilo e do discurso do argentino, seja com ‘dancinhas’ em eventos públicos ou com a defesa de cortes nas contas públicas. “Se na Argentina teve motosserra, no Brasil terá tesouraço nos impostos, na burocracia e na corrupção!”, escreveu Flávio no X após a reunião com Milei.
Nas últimas semanas, Flávio também buscou se associar a outros dois nomes da direita, a peruana Keiko Fujimori e o colombiano Abelardo de la Espriella, e parabenizou ambos pelas vitórias nas urnas.
Em maio, antes do primeiro turno das eleições na Colômbia, Flávio e Eduardo fizeram uma videochamada com Espriella, que declarou ser “Bolsonaro até morrer”. “Falta muito pouco para que estabeleçamos uma frente comum contra a esquerda radical”, escreveu o colombiano no X. Assim como a família Bolsonaro, ele adotou o uniforme da seleção do seu país em atos públicos e posts nas redes.
Há mais similaridades entre as campanhas de Flávio e Espriella. Além de demonstrações de apoio ao presidente americano Donald Trump, ambos cultivam uma imagem de pai de família como estratégia para angariar votos. Outra semelhança é o uso de vídeos feitos com inteligência artificial.
Enquanto o brasileiro apostou em publicações nas quais é retratado como um piloto de caças que dispara contra embarcações do PCC e CV, o colombiano surge como um tigre de terno e gravata que vai a podcasts e fala em comícios. Além do marketing eleitoral, os dois investem na pauta da segurança pública — estratégia compartilhada também por Fujimori.
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Na avaliação de especialistas, o tema é um dos principais vetores de integração entre a direita latino-americana. São comuns as referências ao presidente de El Salvador, Nayib Bukele, e a sua estratégia linha-dura contra o crime, com mega-presídios e medidas repressivas acusadas de violar direitos humanos.
— Vários pilares os unem. Um é a segurança. Sobretudo nos países de língua espanhola, a grande referência é o Bukele, cujo modelo, apesar de todas as críticas, se revelou um chamariz eleitoral poderoso. Isso também influencia grupos aqui no Brasil, apesar do nome dele não ter se popularizado junto ao eleitor médio — diz Santoro, que acrescenta — Outros pilares são o alinhamento com Trump e a política pró-mercado, orientada pelo Milei.
Milei em SP
A visita do presidente argentino ao Brasil no sábado deve incluir um encontro reservado junto a Flávio Bolsonaro e o governador de São Paulo Tarcisio de Freitas (Republicanos). Há a expectativa de Milei discursar na convenção do PL. O argentino planejava visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão domiciliar em Brasília, mas foi frustrado por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Nas próximas semanas, ele irá às posses de Fujimori e Espriella, além de se encontrar com o presidente do Equador Daniel Noboa, também de direita. O bom trânsito junto a líderes ideologicamente próximos contrasta com a relação com o presidente Lula. Os dois não se encontraram nenhuma vez este ano.
Demonstrações de apoio a candidatos de outros países não são exclusividade da direita. No passado, Lula já apoiou publicamente Nestor e Cristina Kirchner na Argentina e os venezuelanos Hugo Chávez e Nicolás Maduro. O sentido inverso, de um estrangeiro engajando na campanha de um brasileiro, no entanto, é menos comum, destacam especialistas.
— A Janja, por exemplo, torcia para Sergio Massa (adversário de Milei na eleição de 2023). Virou o novo normal, apesar de ser algo ruim para a relação entre os dois países — diz Santoro, que frisa — As disputas ideológicas ultrapassam fronteiras. Uma eleição na Colômbia ou Argentina impacta também o seu país.
No momento, o Brasil é uma exceção regional, único grande país da América do Sul ainda governado por um nome da “onda rosa”, como se chamou a leva de líderes de esquerda que ascenderam ao poder no início do século. Em 2022, quando Lula ganhou o terceiro mandato, o cenário era o inverso, com presidentes à esquerda na Argentina, Colômbia, Bolívia, Chile, Guiana, Peru e Venezuela. Em 2006, quando o petista disputou a reeleição pela primeira vez, o cenário regional também era mais favorável, com vizinhos governados por nomes como Néstor Kirchner, Evo Morales e Michelle Bachelet. Em 2002, na primeira eleição à presidência, a “onda rosa” estava em seu início.
Ao ser eleito em 2018, Jair Bolsonaro encontrou um continente americano em grande parte já dominado por nomes de direita, com Trump à frente dos EUA. Os vizinhos, no entanto, eram governados por representantes das alas mais tradicionais do campo, como Sebastián Piñera no Chile e Mauricio Macri na Argentina. Passados oito anos, o perfil dos novos presidentes é mais radical e próximo da imagem de outsider.
Fatores como rejeição aos incumbentes em meio ao cenário econômico pós-pandemia, o retorno de Trump ao poder e o peso dado à pauta de segurança são citados como elementos que contribuem para a “maré azul”. Para o cientista político Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV, no entanto, as viradas à direita no continente correspondem também a dinâmicas internas.
— No Chile, o Kast chega ao poder na esteira de um governo Boric super à esquerda e polêmico. Na Colômbia, o Petro estava vinculado muito ao fim das Farc, que foi um acordo controverso que fissurou a sociedade e não resolveu a questão da violência — diz Paz, cético quanto ao resultado eleitoral da estratégia dado o desconhecimento da população em relação às lideranças estrangeiras — Ele (Flávio) tem que se aproveitar do que conseguir. É um candidato em posição de maior fragilidade.