Crônica: Juazeirim

Gilberto Maciel*

Fazia mais de cinco anos que eu não ia a Juazeiro (BA), apesar de morar a menos de 500 quilômetros
da cidade onde nasci. Pra ser sincero, faltavam-me estímulo, vontade ou qualquer motivação para revê-
la, embora as postagens da prefeitura, espalhadas pelas redes sociais, tentassem vender a imagem de que
a nossa velha Juazeiro estava se transformando numa espécie de Dubai do sertão baiano.
De tanto assistir a essas propagandas, comecei a acreditar que talvez a cidade estivesse mesmo
diferente. Resolvi, então, fazer uma visita a Juazeiro. Também havia outro motivo para essa viagem:
rever os poucos parentes que ainda permanecem por lá e reencontrar meus raríssimos amigos.
Cheguei a Juazeiro neste mês de maio de 2026 e permaneci cinco dias na cidade – tempo mais do que
suficiente para perceber que a realidade continua muito distante da propaganda oficial. E, utilizando-me
de uma canção do compositor Carlos Imperial, posso dizer que “encontrei as mesmas praças, os
mesmos bancos, as mesmas flores e os mesmos jardins”.
Caminhei pelas ruas tentando encontrar algo novo, alguma mudança significativa, alguma obra que
simbolizasse progresso, mas não vi absolutamente nada que justificasse tanto marketing político.
A única novidade de maior impacto é a obra da travessia urbana, realizada com recursos do governo
federal, embora cada político tente puxar para si os méritos dessa construção, a qual, de fato, é
importante para a cidade. Só não sei, ainda, o que irão fazer com o enorme espaço aberto debaixo dos
viadutos – tomara que não se transforme em mais uma área abandonada ou mal aproveitada.
As ruas de Juazeiro continuam sujas. O lixo se acumula em vários pontos da cidade, não existe poda
regular de árvores e muitos logradouros públicos permanecem abandonados, entregues ao mato, ao
descaso e à indiferença administrativa. Os canais das muriçocas seguem abertos, escuros, fedorentos e
tomados pela vegetação, como feridas expostas no meio da cidade.
As casas continuam com as cores de sempre, o povo reclama das velhas mazelas e os bares (que
aumentam a cada dia) que seguem reunindo o mesmo público. A exceção parece ser a Orla II, que,
segundo muitos comentários ouvidos pelas ruas, teria sido feita mais para os moradores de Petrolina do
que para os próprios juazeirenses, já que os preços praticados ali não cabem no bolso da população
mais pobre da nossa cidade.
Pra mim, Juazeiro continua na mesma mesmice, com o desemprego, violência crescente, saúde pública
deficiente e uma educação cada vez mais fragilizada.
Antigamente, nós, juazeirenses, sofríamos da síndrome do vira-lata, aquele velho complexo de
inferioridade diante do crescimento e da beleza de Petrolina. Hoje, porém, a situação parece ainda pior.
Nós, filhos do velho “Juazeirim”, já não conseguimos enxergar o presente e muito menos o futuro.
Atualmente, cada juazeirense parece olhar apenas para o próprio umbigo, enquanto a tão divulgada
“Dubai do sertão baiano” continua existindo somente nas propagandas oficiais do governo municipal.
Pra ser sincero, houve um tempo em que eu ainda conseguia enxergar uma luz no fim do túnel de
Juazeiro. Hoje, já não vejo sequer o túnel.

*Gilberto Maciel dos Santos
Nascido em Juazeiro, escritor e compositor.

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