A possível escolha de Clarissa Tércio como vice na chapa encabeçada por Flávio Bolsonaro revela um movimento estratégico do PL que dialoga diretamente com um dos principais desafios da direita brasileira: ampliar sua penetração eleitoral no Nordeste.
A região, historicamente alinhada ao PT, tem resistido às investidas conservadoras em disputas presidenciais, mesmo com o crescimento de lideranças locais identificadas com pautas religiosas e de costumes. Ao cogitar uma parlamentar que combina forte votação, identidade evangélica e atuação em temas sociais específicos, o partido tenta construir uma ponte entre sua base ideológica e um eleitorado ainda majoritariamente refratário.
Nesse contexto, o perfil de Clarissa Tércio atende a critérios claros. Sua expressiva votação no Nordeste a coloca como um ativo eleitoral relevante, sobretudo em Pernambuco, estado simbólico na política nacional e tradicional reduto petista.
Além disso, sua vinculação à Igreja Assembleia de Deus e o capital político derivado dessa relação reforçam a aposta no voto evangélico, segmento que tem demonstrado crescente capacidade de mobilização. Ao mesmo tempo, o PL parece buscar uma composição que reproduza, em alguma medida, o modelo que ganhou visibilidade com Michelle Bolsonaro, cuja atuação em pautas inclusivas ajudou a suavizar a imagem do bolsonarismo junto a determinados públicos.
Outro elemento relevante é a tentativa de contraposição simbólica a nomes como Natália Bonavides, que representam a força do campo progressista na região. Ao escolher uma mulher com forte identidade religiosa e discurso voltado a pautas sociais específicas, como o autismo, o PL procura disputar narrativas em áreas onde tradicionalmente encontra dificuldades. Trata-se de uma estratégia que vai além da aritmética eleitoral e busca reposicionar a imagem do grupo político, agregando elementos de sensibilidade social e proximidade com demandas concretas da população.
Ainda assim, a eventual consolidação dessa escolha dependerá de variáveis mais amplas do cenário político nacional. A definição de alianças, o desempenho do governo federal, o ambiente econômico e a capacidade de transferência de votos serão fatores determinantes. A presença de Clarissa Tércio na chapa pode ampliar o alcance regional e dialogar com nichos específicos, mas também exigirá equilíbrio para não limitar o discurso a segmentos muito definidos. Em um país de dimensões continentais e clivagens políticas profundas, a construção de uma candidatura competitiva passa necessariamente pela capacidade de unificar diferentes agendas — e é nesse ponto que a escolha do vice deixa de ser apenas simbólica para se tornar peça central na estratégia eleitoral.
Coluna do Edmar Lyra