Segundo o publicitário e analista político Guto Araujo, menor mobilização nas ruas, inelegibilidade de Jair Bolsonaro e manutenção dos índices de aprovação de Luiz Inácio Lula da Silva apontam para uma disputa menos ruidosa e mais estratégica
As manifestações promovidas pela direita brasileira no último domingo, 1º de março, em diversas capitais, tiveram participação abaixo da registrada em anos anteriores. Projeções de órgãos de segurança pública e levantamentos com base em imagens aéreas indicaram presença menor em comparação com atos passados. O contexto ganha relevância diante de um fator decisivo: o ex-presidente Jair Bolsonaro está inelegível por decisão do Tribunal Superior Eleitoral e responde a processos no Supremo Tribunal Federal, o que restringe sua atuação direta no processo eleitoral.
Para Guto Araujo, o quadro não deve ser interpretado como enfraquecimento automático do campo conservador, mas como sinal de transformação no comportamento do eleitorado e de reacomodação interna das lideranças. “O período das grandes mobilizações como principal ferramenta de pressão perdeu fôlego. Isso não quer dizer perda de identidade ideológica, e sim mudança de método. Sem um nome competitivo oficialmente consolidado e com limitações jurídicas sobre sua principal referência, o movimento tende a se reorganizar dentro dos partidos e nas articulações regionais”, avalia.
Levantamentos nacionais divulgados entre janeiro e fevereiro de 2026 por institutos como Datafolha e Quaest mostram manutenção dos níveis de aprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com variações dentro da margem de erro. O ambiente político segue dividido, porém com menor intensidade emocional. Na leitura de Araujo, o ponto central está na constância dos números. “Quando os índices atravessam momentos de tensão sem oscilações abruptas, há indício de eleitor mais pragmático. A corrida de 2026 tende a ser decidida menos por demonstrações de massa e mais por narrativa consistente, leitura de dados e construção de apoios”, analisa o publicitário.
Informações oficiais do TSE indicam que o país possui mais de 150 milhões de eleitores aptos. Tradicionalmente, o comparecimento no primeiro turno das eleições presidenciais fica entre 79% e 80%. Ao mesmo tempo, sondagens qualitativas recentes apontam crescimento do grupo que declara cansaço diante da polarização contínua. Para o analista, esse contingente pode definir o resultado. “Há um segmento que rejeita rupturas institucionais e extremos retóricos. Quem conseguir dialogar com esse público, preservando posicionamento claro, tende a ganhar vantagem competitiva”, destaca.
Sem Bolsonaro na urna, lideranças conservadoras, entre governadores, parlamentares e figuras regionais, intensificam movimentações para ocupar espaço nacional. Paralelamente, legendas de centro ampliam negociações em busca de protagonismo. “O foco deixou de ser uma liderança carismática isolada e passou a ser a capacidade de montar uma coalizão viável, com capilaridade regional e sustentação política”, observa Araujo. Ele também ressalta o peso do ambiente institucional. “A atuação do STF e da Justiça Eleitoral trouxe maior previsibilidade ao processo. Isso exige campanhas mais disciplinadas e reduz espaço para discursos de contestação do sistema”, ressalta o especialista.
Na síntese do analista político, o momento é de transição. “A política brasileira segue polarizada, mas entrou numa etapa de cálculo. Em 2026, vence quem souber interpretar o ambiente eleitoral com precisão, estruturar bases políticas sólidas e transmitir segurança ao eleitor”, conclui Guto Araujo.