Empresas de familiares do ministro do STF venderam parte de um hotel no Paraná para fundo de investimentos usado por cunhado do dono do Banco Master
Apesar de terem figurado como sócios do Tayayá Aqua Resort, em Ribeirão Claro (PR), irmãos do ministro José Antônio Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), levam uma vida sem luxo em Marília, no interior de São Paulo, destoando do empreendimento hoteleiro às margens do Rio Itararé.
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Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, comprou em 2021 uma parte da fatia dos irmãos do ministro no empreendimento por meio de fundos da gestora Reag. A relação entre o Banco Master, de Vorcaro, e a gestora é investigada na segunda fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal (PF). Posteriormente, em 2025, o resort foi vendido ao advogado Paulo Humberto Barbosa.
O caso do Banco Master está sob relatoria de Dias Toffoli no STF, e a relação de seus familiares com o Tayayá, que o ministro ainda frequenta, aumenta as controvérsias em torno das decisões do magistrado.
- Toffoli e o resort: novos elementos ligam ministro a empreendimento na teia financeira do Master
José Eugênio Dias Toffoli é engenheiro eletricista e vive em uma casa térrea em uma rua residencial do Jardim Universitário, bairro de classe média na cidade, com sua esposa e seu filho. O piso quebrado da calçada na entrada do imóvel e a pintura gasta das paredes externas não fogem do cenário de uma família de classe média.
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Na garagem, um BYD King, um Toyota Etios e um Volkswagen Taos estavam estacionados nos dois últimos dias, quando o GLOBO esteve no local. A campainha foi tocada várias vezes, mas em nenhuma houve resposta.
— A rua está famosa — comentou uma moradora, citando reportagens que viu nos jornais relacionadas ao vizinho.
Segundo moradores, José Eugênio e a família levam uma vida tranquila, sem extravagâncias e com poucas visitas. Ele sai para trabalhar quase todos os dias. Ao jornal O Estado de S. Paulo, a esposa dele, Cassia Pires Toffoli, disse desconhecer qualquer participação do marido no resort, ainda que a sede da Maridt Participações, empresa de Eugênio que detinha cotas do empreendimento de luxo, tenha como sede o mesmo endereço de sua casa no registro da Junta Comercial de São Paulo (Jucesp).
A Maridt também teve como sócio José Carlos Dias Toffoli, outro irmão do ministro, um padre conhecido em Marília. Chamado por todos de Padre Carlão, o ex-reitor do Seminário Rainha dos Apóstolos atuava na Diocese de Marília desde 1983 e ficou conhecido como titular da Paróquia Sagrada Família, no norte da cidade.
Em outubro de 2021, ele pediu um “tempo de repouso”, acolhido pelo bispo Dom Luiz Antonio Cipollini. Desde então, não cuida de nenhuma paróquia. Reza missas vez ou outra quando convidado por outros padres em igrejas locais.
‘Surpresa’ na cidade
O pedido de afastamento dele veio depois da revelação de que o padre figurava como sócio do Tayayá com José Eugênio, por meio da Maridt. Segundo pessoas ligadas à diocese, a informação causou “surpresa”, pois padres são instruídos a se dedicarem a uma vida modesta e austera, combinada com castidade e obediência.
Atualmente, José Carlos vive em uma chácara na região sul de Marília, a oito quilômetros do centro. O GLOBO foi ao local na sexta-feira, mas, pelo interfone, uma voz masculina apenas respondeu: “boa tarde, passar bem e bom trabalho”. Ninguém saiu da propriedade e só um cão da raça golden retriever, que estava solto, ficou próximo ao portão.
Na garagem, havia um Chevrolet Onyx 2012 e um Tiggo Sport 2025 — este último está registrado em nome da Maridt. A chácara é plana e grande. Em torno da casa sóbria, de um pavimento, há um jardim e um minicampo de futebol. Segundo vizinhos, o padre tem saído pouco nos últimos dias e sequer aparece na varanda.
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O caminho para a chácara dá o peso do sobrenome Toffoli por ali: para acessar o bairro, é preciso passar pela Avenida Luiz Toffoli, em homenagem ao pai do ministro Dias Toffoli, que foi um empresário popular na região.
A via era de terra até o ano passado, mas teve parte asfaltada com apoio do governo federal. Em maio de 2025, o vice-prefeito de Marília agradeceu à família Toffoli pelo “apoio para conquistar os recursos em Brasília” em uma cerimônia que contou com a presença de José Carlos e alguns dos outros filhos do homenageado — o ministro Dias Toffoli tem oito irmãos.
Antes de se mudar para a chácara, José Carlos morava numa casa da Igreja Católica no Núcleo Habitacional Castelo Branco, perto da Sagrada Família, mas teve de deixar a residência com o seu afastamento da paróquia. Em nota, a diocese disse que está “atenta aos acontecimentos sociais” e “reafirma seu comprometimento com a transparência”.
Primo de Toffoli iniciou empreendimento
O Tayayá Aqua Resort foi lançado em 2008 por Umberto Degani, primo de Dias Toffoli, e pelo advogado Euclides Gava Junior. Em dezembro de 2020, a Maridt Participações entrou no quadro societário.
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A empresa havia sido aberta alguns meses antes por José Carlos, que constava como presidente, e José Eugênio, que tinha o cargo de diretor. Passou a deter cerca de um terço do resort. Em março de 2023, José Carlos deixou a presidência da empresa e foi substituído por Igor Pires Toffoli, filho de Eugênio.
Sócios do cunhado de Vorcaro
Antes, em 2021, a empresa dos irmãos Toffoli vendeu parte de suas cotas no Tayayá ao fundo de investimentos Arleen, que tinha como controlador o fundo Leal, cujo único cotista era Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, dono do Master, e também investigado pela PF.
O fundo Arleen era gerido pela Reag Investimentos, que já era alvo de investigações por lavagem de dinheiro do crime organizado —o que a gestora nega — quando entrou no radar da Compliance Zero por operar uma rede de fundos de investimentos que favoreciam fraudes do Master, segundo a PF. A gestora, foi liquidada pelo Banco Central (BC).
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Degani não foi encontrado pelo GLOBO, e Euclides não retornou os contatos. Em um endereço ligado ao advogado em Marília, seu pai, Euclides Gava, disse que o filho saiu do negócio do Tayayá e não tem relação com a família Toffoli.
As cotas vendidas pela Maridt ao Arleen somaram R$ 6,6 milhões e, com isso, o fundo virou sócio dos irmãos e do primo de Dias Toffoli no resort. O ministro é o relator do inquérito que investiga indícios de fraudes e crimes financeiros envolvendo o Master, liquidado pelo BC em novembro passado em meio a uma crise de liquidez, e a identificação de irregularidades em operações bilionárias com o BRB.
Diária de no mínimo R$ 1 mil
O ministro não tem participação direta no resort, mas é visto com frequência ali. Continuou indo ao local com familiares mesmo após o advogado Paulo Humberto Barbosa ter comprado o controle do empreendimento, em fevereiro de 2025.
Dias Toffoli geralmente fica em uma casa mais reservada no complexo que, segundo O Estado de S. Paulo, custa R$ 750 mil por uma cota que dá direito a quatro semanas de estadia por ano no local.
No Tayayá, é possível se hospedar em chalés ou apartamentos. As diárias variam. A mais em conta, para chalés com até quatro leitos, é de cerca de R$ 1 mil. As atrações vão de piscinas e toboáguas a passeios de lancha e caiaque na represa que margeia o complexo, onde há também saunas, restaurantes e bares.