Home / Artigo / PELA PRESERVAÇÃO DA TRADIÇÃO DOS CONGOS DE JUAZEIRO

PELA PRESERVAÇÃO DA TRADIÇÃO DOS CONGOS DE JUAZEIRO

Segundo a professora e antropóloga Odomaria Bandeira, vários africanos ao virem para o Brasil  como escravos acabaram trazendo esta tradição e adaptando com a cultura local. ” O que a gente tem hoje dos congos é o que conseguiu sobreviver ao longo de tantos anos dessa história. Porque na verdade a prática dos congos tem muito haver com a prática da escravidão que atingiu o brasil praticamente por mais de 200 anos, e que chegou até essa região. Essa própria presença de Nossa Senhora do Rosário, é bem significativa dessa presença do negro no contexto de escravatura como um segmento social marginal, praticamente sem espaço para manifestar a sua religiosidade.”.

Em Juazeiro não se sabe a data exata em que os congos tiveram origem. Segundo relatos dos participantes mais velhos  da atual formação dos congos sabe-se apenas que o senhor José Cassiano, que morava na Ilha de Nossa Senhora, foi quem ensinou esta dança aos primeiros componentes do grupo, formado apenas por homens.

Seu Cassiano foi portanto o 1º dirigente dos congos de Juazeiro.  Depois de sua morte em 1935,  os senhores: Berto e João Lionídio  deram continuidade a tradição, e desde 1973 até hoje o responsável pelos ensaios é o senhor José Pereira, mais conhecido como Gó Véi.

Com quase 80 anos,  seu góvei relembra que antigamente a bandeira do rosário visitava várias localidades do interior  e quase todas as casas da cidade  quando o grupo pedia esmola em forma de cantiga  para arcar com as despesas da festa.

Os cantos  dos congos são uma mistura de louvor à virgem do rosário e melancólicas toadas de marujos. Seu Go véi  é neto do segundo dirigente dos congos  aos 10 anos de idade entrou para o grupo. “Eu andava com meu avó e ele sempre me dizia: José, você vai tomar conta do meu encargo, porque meus filhos não dão para isso. Ai eu fui crescendo, crescendo, até que um dia eu soltando pipa, um pedaço de pau entrou em meu pé e eu fiquei sem poder caminhar. Meu irmão me levava na cacunda para os ensaios dos congos, até que minha mãe fez uma promessa para Nossa Senhora do Rosário: José tem vocação para os congos, se ele ficar bom dentro de um ano, ele entra para os congos. Ai eu fiquei bom e minha fé por nossa senhora só aumentou.”.

Assim como seu Govéi, a maioria dos integrantes do grupo  começou nos congos  ainda criança e para cumprir promessas de familiares  essa também é a história de Antônio Carlos Xavier  que participa do grupo há mais de 30 anos.  ” Eu comecei no congos ainda criança porque minha mãe é filha de um dos fundadores dos congos, e quando eu era pequeno eu era muito doentinho, ai minha mãe fez uma promessa para Nossa Senhora, se eu melhorasse, eu iria ficar nos congos. Ai eu me curei e tomei gosto pelo grupo e estou até hoje.”, declarou Antônio.

Todos os integrantes dos congos  seguem a religião católica e o grupo teve relação direta com a igreja até o final da década de 1950. Os congos costumavam realizar a cerimônia do mastro em frente à igreja de nossa senhora das grotas  sob a orientação do primeiro dirigente José Cassiano.

Durante a cerimônia os congos cantavam os mesmos versos de hoje ao se dirigirem à catedral. O  mastro ali permanecia até sete dias após os festejos e  no dia da festa os congos devidamente uniformizados acompanhavam os futuros reis até a igreja.
Ao longo da missa festiva de Nossa Senhora do Rosário  o padre coroava os reis  depois que os congos deixavam a igreja e iam derrubar o mastro. Esta cerimônia com o tempo deixou de ser realizada.

Hoje, no dia da cerimônia da santa, ao chegarem à catedral os integrantes do grupo entram em silêncio e ocupam os primeiros lugares da igreja e participam da missa solene em louvor de sua padroeira que se inicia a partir das nove horas da manhã.Ao final da cerimônia, os congos dançam ao redor da catedral e reconduzem os reis à sua residência sempre cantando

 A igreja católica foi responsável por algumas mudanças na tradição dos congos em juazeiro. Segundo o senhor Góvéi,  ” antes não era permitida a participação de mulheres na manifestação mas depois que o então bispo da cidade na época Dom José Rodrigues explicou que em congos de outras regiões as mulheres participavam , o grupo se modificou.”.

Hoje o grupo dos congos de juazeiro é formado por homens  mulheres e crianças. Para o senhor Govéi os congos representam a alegria e a devoção.

Para Odomaria, o cortejo,  as danças,  e as cantigas dos congos além de serem uma representação cultural da cidade, também são uma lembrança para quem cresceu vendo os cortejos. ” Eu cresci vendo os congos passando pela porta de meu avô. Ai meu avô morreu, e eu cresci sempre atenta afetivamente ao grupo. E ano a ano, aquele ritual sempre estava sendo esperado pela gente, e depois que eu me tornei uma estudiosa da cultura, eu fui percebendo a importância de uma tradição como a dos congos, em termo de uma construção de uma identidade para essa cidade.”.

A tradição se mantém viva em Juazeiro e vem sendo passada de pai pra filho. Seu Govéi lembra que assumiu o grupo  a partir de um pedido de seu avô  antes de morrer. ” Ele sabia que ia morrer e pediu para me chamarem, quando eu cheguei ele me pediu para assumir o grupo e eu disse: Pode ir despreocupado que eu vou tomar conta e estou até hoje.”.

A continuidade dos congos de juazeiro é uma preocupação dos integrantes mais velhos do grupo. O atual dirigente  dos congos e o mais velho do grupo tem receio da tradição dos congos em juazeiro acabar. “Não é fácil, precisamos de apoio, incentivo. Tem que ter muita paciência, não é todo mundo que tem e consegue manter essa fé. O dom vem de dentro de você.”.

O desejo pela continuidade  é que vem garantindo a existência do grupo que resiste ao tempo e envolve crianças , jovens, e adultos  dentro de uma mesma tradição.

Interessados:

Feijoada musical – Mauricio Dias & convidados – Domingo dia 29 de abril a partir das 12h – no CELEIRO rua 8 bairro Maringá .
Ingresso: super feijoada + um cd especial do compositor Maurício Dias Cordeiro = R $20,00
Casadinha = R$30,00 + Cd.
Ingressos na Seculte (praça da catedral) 3611- 4338 3613-0654
74-98846-8738 – zap 71-99115-1278

Mauricio Dias Cordeiro