*Otoniel Gondim
Leitor, saudades mútuas, inicio dizendo que o ENEM é a segunda maior prova de acesso do mundo. Somente perde, por razões óbvias, para a China. Por isso que a importância do ENEM não só para os estudantes, mas, para toda a sociedade e o país, é tremenda, incalculável, indelével e educacionalmente soberana. As provas de 2015, primordialmente nas Áreas de Humanas e Letras , foram marcadas pela pluralidade dos conhecimentos e das culturas.
Assim, o ENEM alcançou as suas metas e os seus sonhos de criação e evolução, dando esse ano um enorme salto: TRANSFORMAR OS ESTUDANTES BRASILEIROS EM SERES PENSANTES. Ufa, finalmente, um alívio. Leitor, leitor, vosmecê sabe tanto quanto euzinho aqui ,que não há mais lugares e menos tampouco razões para se copiarem modelos arcaicos, antigos, dinossauros ou já ultrapassados. A modernidade exige mudanças, disse ao país e ao mundo o profeta Lula.
As questões do ENEM foram elaboradíssimas , buscando dentro de um senhor nível quebrar a banalização do aprendizado, do saber e da cultura tradicional, velhaca, feia, fedorenta, aterrorizante pelo simples “ decoreba “, dica, bizu, das fórmulas e conceitos na ponta da língua. Rompimento legal de paradigmas, querido leitor.
E agora, meu pai? Ai, meu pai, e agora? …Agora seja rico, preto, pobre, branco, fumaça vai fumaça vem, vai ter ( Ô se vai!) que ler muito, ouvir músicas decentes, assistir bons filmes e boas peças teatrais, e se conscientizar politicamente. Ou…adeusinho ENEM.
Não dá para não elogiar uma prova que traz no seu bojo uma questão com trecho da obra-prima “ O Segundo Sexo” da fenomenal escritora francesa Simone de Beauvoir, musa do gênio Jean Paul Sartre.
Não dá para não elogiar uma prova que traz no seu bojo nas linhas e entrelinhas citações de Chico Buarque ( “ Carta ao Tom” ), Pinxiguinha ( Evocando candomblés), Drummond, Arnaldo Antunes, Vinícius de Moraes, Luiz Gonzaga, Hobbes, Weber e Nieztche.
Não dá para não elogiar uma prova que traz no seu bojo como tema de redação ( Ixe, cheguei onde queria.) a violência contra a mulher no Brasil.
Leitor, sejamos sinceros pela nossa mãe e o nosso umbigo: Dá ou não dá para elogiar ao extremo a prova do ENEM? Obrigado, sabia que diria sim.
Pois, bem. Pois, bem
Tema da redação: A PERSISTÊNCIA DA VILÊNCIA CONTRA A MULHER NA SOCIEDADE BRASILEIRA.
E aí, meu caríssimo, , o pau comeu solto. E o novo ENEM virou o alvo preferido da imprensa nacional e das redes sociais. Dos Oiapoques aos Chuís, dos prós e dos contras.E o tema da redação ganhou contornos antes inimagináveis. Políticos de direita e do conservadorismo ortodoxo e xiita , em cima de que isso era Doutrina Comunista Feminista, desfilaram impropérios, falsos verbetes, o escambau, contra todo (
Aproveitaram a carona do tema.) o conteúdo e a filosofia da prova do ENEM. Pura mania de sempre buscar sacanear o correto e inovador do bem.O engraçado, já notou isso leitor?, é que os reacionários nacionais somente surgem após os alardes iniciais dos fascistas políticos evangélicos( Estilo Bolsonaro, Feliciano, Malafaia.) Já notou isso, leitor? Sem consistência de seriedade, somente rosnam e ladram.
O tema sobre a violência contra a mulher não é ideológico, não é dogmático, não é nem de esquerda e nem de direita. É um tema humano. Apenas com muita coragem e vigor colocou em xeque como os maus homens olham e tratam as mulheres.Levou para oito milhões de famílias brasileiras uma importante reflexão sobre um angustiante assunto.É mole ou quer molho?!?
Na verdade, foi, está sendo e sempre será um grande esforço para entender essa dura realidade. Os números, as estatísticas, apontam e mostram a violência física e moral sofrida pela mulher brasileira, principalmente a de baixa renda e excluída socialmente.Isso desemboca em contornos assustadores dentro da família, sociedade e da nação. Tem que se entender ( E não vedar os olhos. ) o mal para combatê-lo.
Dá-se hoje a péssima impressão que , no Brasil, a mulher luta e o homem é um ser.Daí, ela tem que ser a “ Amélia” da música de Ataulfo, ou seja, a mulher obediente, subjugada, inferior, de salário menor e digna de violência. Vale, hipócritas de plantão, nos dias de hoje a cultura do estupro físico, moral e ético?
Preciso é, afirmo categoricamente, um esforço arrojado para transformar essa realidade infame, com campanhas de conscientização, aplicação mais veemente da Lei Maria da Penha e uma propagação incessante e midiática da igualdade de gêneros. E lógico, mulheres desse país, que vocês enxerguem com altivez, caráter, sem submissão, a vocês mesmas como seres humanos e igualitários.
Bombombom…que bom que o tema sobre a violência contra a mulher causou tanto alvoroço, preocupação, sensibilidade, assombro. Sinal positivo de que, no fundo, o país está vivo e , apesar das figuras escusas e desumanas, tem intactos e esperançosos brasileiros humanos.
Bravo, ENEM!
*Otoniel Gondim —– Professor, Escritor e Compositor.