DEPOIS DAS URNAS, A VIDA CONTINUA

Por Rinaldo Remígio*

Confesso que tenho aberto as redes sociais com preocupação. Entre uma postagem e outra, encontro palavras que ferem, comentários que afastam e manifestações de intolerância que me fazem perguntar: até onde estamos permitindo que as divergências políticas comprometam nossa convivência?

Por trás de cada perfil existe uma pessoa. Pode ser o amigo de muitos anos, o colega de trabalho, o vizinho com quem conversamos na calçada ou aquele familiar que sempre teve lugar à nossa mesa. De repente, uma escolha eleitoral parece suficiente para apagar uma história inteira de afeto e respeito.

A democracia nos assegura o direito de pensar, escolher e manifestar nossas opiniões. Mas essa liberdade exige responsabilidade. É preciso lembrar que, do outro lado da conversa, há alguém com o mesmo direito de fazer uma escolha diferente da nossa.

O Brasil é grande demais para caber na estreiteza da intolerância. Somos cinco regiões, com culturas, costumes e sotaques que contam a história de nossa gente. Há diferentes maneiras de falar, de preparar os alimentos, de celebrar a vida e de enfrentar as dificuldades. Há, também, necessidades e experiências distintas, que influenciam a maneira como cada cidadão olha para o país.

Sou nordestino, sertanejo, e tenho orgulho das minhas raízes. Esse pertencimento me ensina a valorizar minha terra e a respeitar a terra dos outros. Nenhuma região pode ser reduzida a um resultado eleitoral, como se todos os seus habitantes pensassem da mesma maneira ou precisassem justificar suas escolhas ao restante da nação.

Por isso, entristece-me encontrar ameaças de não comprar de determinado comerciante, de não visitar uma cidade ou de não gastar em uma região por causa dos votos depositados nas urnas. Fico pensando no trabalhador que abre seu pequeno negócio antes de o sol esquentar, no empregado que depende daquele movimento, na família que recebe visitantes para garantir seu sustento. Que sentido há em desejar dificuldades a essas pessoas por uma divergência política?

Na condição de quem acompanha pequenos e médios empreendimentos há mais de 35 anos, sei que a luta diária não pergunta em quem o empresário ou o funcionário votou. A folha de pagamento vence, o fornecedor cobra, os compromissos chegam. E todos precisam continuar trabalhando.

Cada eleitor fez sua escolha a partir daquilo em que acredita, das propostas que considerou melhores e das expectativas que alimenta. Podemos questionar essas razões, debater ideias e discordar com firmeza. O que não podemos é tratar o voto alheio como uma ofensa pessoal.

Havia apenas uma vaga para presidente. Numa disputa democrática, alguém vence e alguém perde. Para uns, o resultado traz alegria; para outros, frustração. Ambos os sentimentos são compreensíveis. Nenhum deles, porém, autoriza a humilhação de quem está do outro lado.

Agora, precisamos respeitar o resultado e acompanhar com atenção os caminhos do país. Respeitar não significa deixar de cobrar. Fiscalizar, criticar com responsabilidade e exigir o cumprimento das propostas também são deveres de cidadania.

Depois das urnas, o vizinho continua morando ao lado. O colega retorna ao trabalho. A família volta a se reunir. E seria muito triste chegar à próxima conversa sem conseguir enxergar, naquela pessoa, tudo o que ela sempre representou para nós.

Desejo que possamos baixar o tom, recuperar a serenidade e voltar a conversar sem transformar cada encontro numa disputa. O país precisa de cidadãos atentos e participativos, capazes de defender suas convicções sem perder o respeito pelo próximo.

A eleição termina. A vida continua. E, quando nos sentarmos novamente à mesa, que ainda haja lugar para o afeto, para a conversa e para quem pensa diferente.

*Professor universitário aposentado e ex-presidente da FACAPE.

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