Por Rinaldo Remígio *
A política é uma estrada curiosa. Nela, muitos acreditam que o único destino possível é a vitória nas urnas.
Poucos compreendem que existem vitórias silenciosas, construídas longe dos palanques, dos aplausos e das manchetes.
Foi assim que enxerguei a decisão de Miguel Coelho ao retirar sua pré-candidatura ao Senado.
Num primeiro olhar, alguns poderão dizer que ele deixou de disputar um cargo importante. Outros interpretarão a decisão sob a ótica das conveniências naturais da política.
Mas o tempo, esse velho professor da história, costuma ensinar que determinados gestos só revelam seu verdadeiro significado anos depois.
O sertanejo conhece bem essa lição.
Há tempo de plantar e há tempo de esperar. Há tempo de avançar e há tempo de recolher o arado para preservar a terra da próxima colheita.
Somente quem conhece o valor da paciência compreende que nem toda retirada representa fraqueza. Muitas vezes, ela demonstra sabedoria.
Miguel escolheu ouvir. Escolheu dialogar. Escolheu colocar um projeto coletivo acima de uma aspiração pessoal. E isso, convenhamos, não é algo comum em tempos nos quais tantos confundem liderança com vaidade.
Mas há um sentimento que permanece vivo no coração de muitos pernambucanos, especialmente dos sertanejos.
O Sertão queria, e Pernambuco deseja, ver o ex-prefeito que transformou Petrolina em um verdadeiro canteiro de obras ampliar sua contribuição para todo o Estado.
Sua gestão deixou marcas importantes na infraestrutura, na mobilidade, na educação, na saúde e na valorização dos espaços públicos, fazendo de Petrolina uma referência de desenvolvimento no Nordeste.
Muitos viam no Senado a oportunidade de levar essa experiência administrativa para defender os interesses de Pernambuco.
Entretanto, a política ensina que cada projeto tem o seu tempo. Adiar uma caminhada não significa abandoná-la.
Muitas vezes, representa apenas respeitar o momento, fortalecer alianças e preparar novos horizontes.
A democracia precisa de disputas, mas necessita, sobretudo, de homens públicos capazes de construir pontes quando elas se fazem necessárias.
O verdadeiro líder não é apenas aquele que reúne multidões ao seu redor; é aquele que sabe renunciar quando entende que sua decisão fortalece um projeto maior.
As eleições passarão. Os discursos cessarão. As bandeiras serão recolhidas. Permanecerá, contudo, a lembrança de que, às vésperas de uma convenção decisiva, um líder político optou por preservar a unidade em vez de alimentar divisões.
Quem conhece a trajetória de Miguel Coelho sabe que sua caminhada política está longe do fim. Ao contrário, continua sendo escrita. O Sertão continua acreditando
Petrolina continua reconhecendo o legado de quem ajudou a transformar sua realidade. E Pernambuco certamente continuará aguardando o momento em que essa experiência administrativa e essa liderança possam, mais uma vez, ser colocadas a serviço de todo o Estado.
Afinal, cargos são passageiros. Mandatos têm prazo para terminar. Os gestos, porém, permanecem. São eles que a história registra e que o tempo se encarrega de julgar.
Lembro-me, então, da sábia declaração das Escrituras:
“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.” (Eclesiastes 3:1).
Talvez este não tenha sido o tempo do Senado. Mas pode muito bem ser o tempo da semeadura de um projeto ainda maior.
Porque, no fim das contas, a verdadeira grandeza não está apenas em conquistar um mandato.
Está em saber compreender o tempo de Deus, respeitar o tempo da política e confiar que o futuro reserva novas oportunidades para quem construiu sua caminhada com trabalho, diálogo e espírito público.
*Rinaldo Remígio é Professor universitário aposentado!