Olhe para o mapa do Brasil dividido em seis biomas e pergunte: qual deles está mais machucado? A resposta intuitiva — e errada, do ponto de vista da desertificação — seria apontar para o que tem a maior área degradada. Mas há uma diferença decisiva entre quanto de um bioma está degradado e quão grave é essa degradação. E é justamente nessa segunda pergunta que mora a história do Semiárido.
O retrato de uma terra ferida
Um levantamento recente sobre o estado das terras brasileiras em 2021 mediu a degradação de cada bioma usando o chamado Índice de Degradação da Terra (LDI), que vai do solo conservado até cinco níveis crescentes de degradação. Os números, somando todas as classes degradadas, são reveladores:
• Mata Atlântica: 65,2% de área degradada
• Pampa: 41,5%
• Cerrado: 39,2%
• Caatinga: 21,4%
• Amazônia: 13,3%
• Pantanal: 12,0%
À primeira vista, a Caatinga parece estar em situação relativamente confortável: pouco mais de um quinto do bioma aparece como degradado, bem abaixo da Mata Atlântica. Mas essa leitura esconde o dado mais importante.
A diferença está na gravidade
Quando separamos apenas a degradação severa — os níveis 4 e 5, os mais extremos, aqueles em que a terra praticamente perde sua capacidade de se recuperar sozinha — o quadro se inverte de forma impressionante:
• Caatinga: 11,7% em degradação severa
• Pantanal: 6,2%
• Mata Atlântica: 5,7%
• Cerrado: 4,3%
• Pampa: 0,2%
• Amazônia: 0,1%
A Caatinga lidera, e com folga. Mais da metade de tudo o que está degradado no bioma já se encontra nas classes mais graves. Em termos práticos, isso significa que a degradação da Caatinga é proporcionalmente a mais severa do país — quase o dobro da do segundo colocado.
E degradação severa, num bioma seco como a Caatinga, tem um nome próprio: desertificação. Não é o avanço de dunas de areia, como o imaginário popular sugere, mas o esgotamento profundo do solo, a perda de vegetação e da capacidade da terra de sustentar a vida. É a ferida que não fecha sozinha.
Por que isso importa no Dia Mundial de Combate à Desertificação
O 17 de junho não é uma data qualquer. Criada pela ONU em 1994, ela existe para lembrar o planeta de que a terra sob os nossos pés tem limites — e que ultrapassá-los custa caro em alimento, água, renda e permanência das pessoas em seus territórios.
Em 2026, a observância global ganha um tema especialmente próximo da realidade nordestina: “Rangelands: Recognize. Respect. Restore.” — um chamado para reconhecer, respeitar e restaurar os pastos naturais e a vida dos povos pastoris, em sintonia com o Ano Internacional dos Pastos e Pastoralistas. A Caatinga é, em essência, o grande pasto natural do sertanejo: território de criação extensiva, de caprinos e ovinos, de gerações que aprenderam a conviver com a seca. Cuidar dela é cuidar de quem vive dela.
Da ferida à esperança
O retrato é duro, mas não é uma sentença. A degradação severa pode ser revertida — e o Semiárido brasileiro acumula décadas de conhecimento sobre como fazer isso: tecnologias de convivência com a seca, manejo sustentável do solo e da água, recuperação de áreas degradadas e valorização da própria Caatinga como solução, e não como problema.
O número assusta, mas também orienta. Saber que a Caatinga concentra a degradação mais severa do país é o primeiro passo para direcionar esforços, políticas e investimentos para onde a terra mais precisa. Neste 17 de junho, o convite é simples: olhar para o chão do Sertão não com resignação, mas com a certeza de que terra ferida também é terra que pode sarar.
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Dados de degradação por bioma (2021) baseados no Índice de Degradação da Terra (LDI), conforme Bezerra et al. (2026), publicado na revista Remote Sensing (vol. 18, art. 1695). O Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca é observado anualmente em 17 de junho, sob coordenação da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD).
Texto por Aldrin Perez / Arte por Katiucia Beserra