Lula conquista virada inédita no segundo turno e é reeleito para 4º mandato

,

Petista terminou o primeiro turno das eleições atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL), mas conseguiu reverter o resultado no segundo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito neste domingo (25/10) e seguirá no comando da Presidência da República por mais quatro anos. O petista derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL), que terminou o primeiro turno na liderança da disputa, mas foi superado em uma virada inédita.

Desde a adoção do sistema de dois turnos, na Constituição de 1988, nunca um candidato que terminou a primeira fase em desvantagem havia conseguido reverter o resultado em uma eleição presidencial.

Lula chefiará o Executivo federal pela quarta vez, em outro feito inédito na história do Brasil. Ele esteve à frente do governo de 2003 a 2006, no primeiro mandato, e de 2007 a 2010, no segundo. Em 2022, retornou à Presidência para um terceiro mandato, iniciado em 2023 e que termina no início de 2027. Agora, permanecerá no cargo até os primeiros dias de 2031.

O petista repetirá a parceria com Geraldo Alckmin (PSB) no posto de vice-presidente.

O presidente e o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) protagonizaram uma das disputas mais acirradas dos últimos períodos eleitorais. No primeiro turno, o senador alcançou 47,03% dos votos válidos, enquanto o petista teve 45,16% — uma diferença de cerca de 2,2 milhões de votos.

Até a véspera do pleito, pesquisas de intenção de voto apontavam os dois candidatos em um empate técnico.

Mudança de rota

Com a desvantagem no primeiro turno, a campanha petista se reorganizou e promoveu mudanças que alcançaram desde a coordenação política à estratégia de redes sociais. Logo após o resultado, Lula convocou uma série de reuniões para traçar táticas rumo à virada.

Uma parcela de aliados, sobretudo da ala mais jovem da base, convenceram o presidente sobre a importância de ampliar a presença nas redes sociais e o incentivaram a gravar vídeos em formato “selfie”, para promover um diálogo direto com o eleitor. A estratégia melhorou o desempenho do petista no campo digital.

Em outra frente, o deputado federal André Janones (Rede-MG) criou um canal no WhatsApp, chamado “Exército do Lula”, para dar orientações a apoiadores do presidente sobre mobilização on-line. O grupo acumulou milhões de seguidores em poucas semanas e foi alvo de diversas ações por parte da campanha de Flávio Bolsonaro. O canal chegou a ficar fora do ar por decisão do ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Lula também participou de debates promovidos por emissoras de televisão, em uma estratégia diferente da adotada no primeiro turno. Frente a frente com o adversário, os embates foram marcados por provocações de ambos os lados.

A comunicação da campanha também investiu em desgastar a imagem de Flávio, associando-o a cortes em programas sociais. O petista explorou a promessa do candidato do PL de fazer um “tesouraço” em despesas do governo, caso eleito. Lula bateu na tecla de que a medida reduziria verbas de programas como o Farmácia Popular, o Pé-de-Meia e o Bolsa Família.

O núcleo duro da campanha também sofreu alterações com a chegada de políticos vitoriosos em estados do Nordeste. O governador reeleito no Piauí, Rafael Fonteles (PT), reforçou a equipe de comunicação; o senador Camilo Santana (PT-CE), entrou para a coordenação política, e o ex-ministro e senador eleito pela Bahia, Rui Costa (PT-BA), assumiu a articulação da agenda.

Outro fator visto como determinante para a virada foi a mobilização de apoiadores nas ruas. Desde o final do primeiro turno, manifestantes promoveram atos em diversas capitais e cidades brasileiras, que reuniram milhões de apoiadores pela reeleição de Lula.

Presidente mais velho da história

Aos 80 anos, Lula já é o presidente mais velho da história do Brasil a assumir o cargo. Com a posse marcada para o início do próximo ano e o aniversário na próxima terça-feira (27/10), ele assumirá o novo mandato aos 81 anos.

Durante a campanha, o petista apostou no discurso de vitalidade. Além de repetir que se sente melhor do que quando assumiu os primeiros governos, Lula tem frisado que faz musculação todas as manhãs. Também publica nas redes sociais vídeos em que aparece se exercitando e correndo durante agendas e pela rampa do Palácio do Planalto.

A estratégia buscou evitar o chamado “efeito Joe Biden”, ex-presidente dos Estados Unidos que desistiu de disputar a reeleição após pressão relacionada à idade — à época, aos 81 anos.

Lula também costuma dizer que o que envelhece uma pessoa é a “falta de causa”, e não a quantidade de anos que ela tem. Como exemplo, afirma que sua causa é o Brasil.

A posse de Lula ocorrerá em 5 de janeiro de 2027. A partir das eleições de 2026, a Constituição passou a estabelecer essa data para a posse do presidente e do vice-presidente. Para governadores e vice-governadores, a cerimônia será realizada em 6 de janeiro. A mudança foi estabelecida pela Emenda Constitucional nº 111, de 2021.


Trajetória de Lula

  • Apesar de ter nascido em 27 de outubro, o registro de Lula tem como data o dia 6 de outubro. A duplicidade gera confusão sobre a data verdadeira do aniversário dele. Segundo a biografia do petista, isso ocorreu porque ele foi registrado anos depois de nascer.
  • No início da vida adulta, Lula tornou-se metalúrgico e conquistou o diploma de torneiro mecânico. Mais tarde, ele se tornou sindicalista e, em 1980, fundou o Partido dos Trabalhadores (PT).
  • O presidente, que é natural de Garanhuns (PE),  governou o país entre 2003 e 2010, e voltou à cadeira da Presidência 20 anos depois, em 2023, para o terceiro mandato.
  • Lula disputou a Presidência em 1989, 1994, 1998, 2002, 2006 e 2022. Em 2018, ele teve a candidatura indeferida e foi substituído por Fernando Haddad.
  • Nos primeiros mandatos, Lula garantiu avanços econômicos e sociais ao país, que lhe renderam aprovação acima dos 80%. Porém, o ex-metalúrgico enfrentou graves escândalos de corrupção, com denúncias de propina assolando as principais obras e investimentos públicos. Os escândalos mancharam a imagem do PT.
  • O partido encarou um momento de grande crise política quando a sucessora de Lula, a ex-presidente Dilma Rousseff, sofreu impeachment, em 2016. O cenário se agravou quando o atual chefe do Executivo foi condenado e preso por corrupção, em abril de 2018, no âmbito das investigações da operação Lava Jato.
  • Em abril de 2021, o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) aceitou as alegações de que o petista não deveria ter sido julgado pela Justiça Federal de Curitiba, e anulou as condenações e os processos em andamento.
  • Após 580 dias de cárcere, ele saiu da prisão em novembro de 2019 e retornou para a política, voltou a se candidatar e derrotou o então presidente Jair Bolsonaro (PL) nas eleições de 2022.

Terceiro mandato

O terceiro mandato de Lula foi marcado pelo retorno de programas sociais que se tornaram símbolo dos governos petistas, como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida.

O foco na retomada das políticas do passado, no entanto, rendeu críticas por falta de uma nova marca. Em 2023, o governo adotou o slogan “União e Reconstrução” para simbolizar a ideia de pacificação e recuperação do país após a gestão de Jair Bolsonaro. Logo nos primeiros dias de mandato, a gestão se deparou com a primeira crise: os atos antidemocráticos de 8 de Janeiro, que levaram à demissão do então chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Gonçalves Dias.

Dois anos depois, o lema foi aposentado e deu lugar à frase: “Governo do Brasil – Do lado do povo brasileiro”. Lançada após a ofensiva tarifária do governo dos Estados Unidos contra o Brasil, a marca buscou reforçar temas como a soberania do país e a justiça social.

As tensões com o governo norte-americano, por sinal, foram destaque na segunda metade do mandato. Em 2025, além de tarifar produtos brasileiros, a Casa Branca impôs sanções a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e integrantes do governo Lula, ação vista como uma tentativa de exercer pressão sobre as eleições brasileiras.

Posteriormente, o governo conseguiu reverter parte das sanções políticas e econômicas, mas os Estados Unidos voltaram a impor taxas a importações brasileiras em julho de 2026. Recentemente, autoridades dos dois países voltaram à mesa de negociação para tentar reverter a medida.

O terceiro mandato de Lula também foi marcado por embates e derrotas no Congresso Nacional. Na maior delas, o Senado rejeitou a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para ocupar uma vaga na Suprema Corte. Foi a primeira vez em 132 anos que parlamentares barraram uma indicação do presidente.

Em outro episódio histórico, o Congresso Nacional derrubou um decreto de Lula que aumentava a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) com o objetivo de elevar a arrecadação federal. Antes disso, última vez que o parlamento sustou um decreto presidencial foi em 1992, durante o governo de Fernando Collor.

A gestão petista também colheu derrotas na votação do PL da Dosimetria, nos vetos do licenciamento ambiental e do marco temporal. Parte dos revezes foi atribuído a problemas na articulação política do governo.

Ao longo do mandato, o presidente trocou o comando da Secretaria de Relações Institucionais, que até o início de 2025 era chefiado pelo ministro Alexandre Padilha (PT). Nos dois primeiros anos de governo, o então ministro acumulou desentendimentos com o ex-presidente da Câmara, Arthur Lira (PP).

Também comandaram a pasta Gleisi Hoffmann (PT), que deixou o cargo para disputar eleições, e o atual ministro José Guimarães (PT). Ainda no âmbito da articulação política, Lula foi forçado a trocar a liderança do Senado, em junho de 2026, após o então titular, o senador Jaques Wagner, ser alvo de uma operação da Polícia Federal (PF) em investigação ligada ao Banco Master.

Antes do período eleitoral, foram 15 trocas em ministérios — algumas causadas por crises e outras por desempenho. Em 2024, por exemplo, o então ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, foi demitido após o Metrópoles revelar denúncias de assédio sexual supostamente cometidos por ele. Uma das vítimas teria sido a ex-ministra da Igualdade Racial Anielle Franco.

Os ministros Juscelino Filho, das Comunicações, e Carlos Lupi (PDT), da Previdência Social, também caíram em decorrência de crises. Outras trocas foram mais estratégicas, visando melhorar o desempenho do governo em determinadas áreas. Foi o caso da Secretaria de Comunicação Social (Secom), com a saída de Paulo Pimenta (PT) para a entrada de Sidônio Palmeira, e a Secretaria-Geral da Presidência, na qual Guilherme Boulos (PSol) substituiu Márcio Macêdo (PT).

Campanha em meio a crises

A primeira fase de campanha foi marcado novamente, assim como em 2022, pela polarização entre petismo e bolsonarismo. Lula e Flávio chegaram à reta final do primeiro turno em uma disputa acirrada, com os dois se aproximando nas pesquisas e o senador chegando a ultrapassar o presidente em alguns levantamentos.

As campanhas também trabalharam para transferir ao adversário os principais desgastes da eleição. Lula explorou a ligação e as semelhanças de Flávio com o pai, além do histórico e das polêmicas envolvendo o senador. O petista também defendeu as ações e os programas de seu governo e buscou associar o adversário às suspeitas envolvendo o escândalo do Banco Master.

Do lado petista, crises internas também marcaram a campanha. As investigações sobre as relações do filho do presidente, o empresário Fábio Luis Lula da Silva, conhecido Lulinha, e do ex-chefe de gabinete de Lula Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, com a lobista Roberta Luchsinger passaram a ser exploradas pelos adversários.

Lulinha e Marcola aparecem em investigações sobre suposto tráfico de influência, e o filho primogênito do presidente é alvo de três inquéritos autorizados pelo STF. Lulinha é apontado como sócio oculto de Luchsinger e, supostamente, utilizava a condição de filho de Lula para fechar contratos com o governo federal em benefício de clientes.

Além disso, o conflito entre ministros do STF no âmbito do Caso Master arrastou o governo para a crise e trouxe ruídos para a campanha de reeleição. Flávio passou a explorar principalmente a relação do ministro Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, e transformou o magistrado em personagem recorrente dos ataques dirigidos ao presidente.

Com a crise envolvendo o STF e levantamentos que chegaram a apontar Flávio na liderança, cresceu nos bastidores a insatisfação de aliados de Lula com a condução da campanha. Na reta final do primeiro turno, o presidente mudou o tom e passou a confrontar diretamente o adversário.

Como reação, o presidente também recorreu a uma série de medidas de impacto direto no bolso da população e na popularidade da gestão. O governo lançou duas novas etapas do Desenrola Brasil, programa de renegociação de dívidas, adotou medidas para conter a alta dos combustíveis em decorrência da guerra no Oriente Médio, criou uma linha de financiamento de carros novos para motoristas de aplicativo e acabou com a tributação federal sobre compras internacionais de até US$ 50, a chamada “taxa das blusinhas”.

Na reta final do 1º turno, o petista lançou uma série de medidas populistas para alavancar a reeleição. A primeira delas foi o reajuste de 15,04% do Bolsa Família, principal marca social das gestões petistas e criado ainda no primeiro mandato de Lula, em 2003. A medida elevou o piso do benefício de R$ 600 para R$ 691.

Em seguida, o chefe do Executivo anunciou que canetas emagrecedoras serão oferecidas gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) a pacientes com obesidade que tenham indicação médica para o tratamento. A implementação, porém, ainda depende da definição de protocolo clínico e de critérios para a incorporação dos medicamentos.

A última “canetada” de Lula ocorreu nove dias antes das eleições: a assinatura da medida provisória (MP) que acaba com as apostas esportivas on-line, as bets. A MP entrou em vigor em 25 de setembro e proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de bets no Brasil. Com isso, sites e aplicativos de apostas estão fora do ar desde 6 de outubro.

Mais bondades

O pacote de benesses às vésperas do primeiro turno não foi suficiente para que o petista saísse da votação com vantagem em relação ao adversário. Em busca de reverter o resultado no segundo turno, Lula apostou em um novo conjunto de medidas que mirou diferentes segmentos do eleitorado, desde jovens a microempreendedores e trabalhadores.

Em acordo com o senador Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado, o chefe do Planalto conseguiu votar e aprovar o fim da escala de trabalho 6×1, uma das principais bandeiras de campanha.

Logo depois, Lula anunciou o envio de Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que garante tarifa zero no transporte coletivo aos fins de semana e feriados em todo o país. O texto foi enviado ao Congresso na última quarta-feira (21/10), a quatro dias para o segundo turno.

O petista também aprovou um pacote de ações voltadas ao Microempreendedor Individual (MEI), que englobam o perdão das dívidas com a União e o aumento do limite de faturamento anual para a categoria.

Paralelo a isso, Lula investiu em novas promessas de campanha e anunciou que, caso reeleito, ampliaria o programa Pé-de-Meia para todos os estudantes do ensino médio da rede pública e para universitários. A iniciativa deverá custar cerca de R$ 4,6 bilhões em 2027, com recursos provenientes do Fundo Social do petróleo.

Desafio dos sigilos

Na reta final para o segundo turno, a campanha foi tomada pela discussão em torno da abertura dos sigilos de ambas as candidaturas. A disputa teve origem durante o debate presidencial na TV Band, no qual Lula lançou o desafio ao adversário de abrir os sigilos fiscais, bancários e telefônicos e de membros da família para rebater acusações de corrupção.

A campanha petista protocolou um documento no TSE autorizando a abertura de seus próprios sigilos, de seus cinco filhos e da primeira-dama Janja Lula da Silva, além de dados de empresas associadas a ele.

No dia seguinte, Flávio informou ao TSE que aceitaria a proposta, mas impôs uma série de condições.

Na manifestação enviada à Corte Eleitoral, o senador pediu a divulgação dos gastos com cartões corporativos da Presidência, informações sobre a agenda da primeira-dama Janja Lula da Silva, além da abertura do sigilo do ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, entre outros pedidos.

Na última quinta-feira (22/10), a três dias das eleições, os dois candidatos acordaram em aceitar as todas as condições previstas nas petições. Por fim, o ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), decidiu que os candidatos poderiam divulgar as informações que acharem pertinente

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PHP Code Snippets Powered By : XYZScripts.com