Por Rinaldo Remígio*
Confesso que fico triste quando leio ou ouço pessoas de excelente formação, inclusive intelectual, afirmarem que votam em determinado candidato apenas porque ele concedeu bolsas e benefícios a uma parcela da população. Respeito o direito de cada cidadão escolher livremente seus representantes, mas considero preocupante quando uma decisão tão importante se resume ao recebimento de uma ajuda governamental.
Não sou contra os programas sociais. Pelo contrário: reconheço sua importância na vida daqueles que enfrentam a fome, o desemprego e outras situações de vulnerabilidade. Há momentos em que o poder público precisa estender a mão e garantir o mínimo necessário à sobrevivência de uma família. Isso é responsabilidade social e dever do Estado.
O que me preocupa é quando uma política pública passa a ser apresentada como bondade pessoal de um governante. Nenhum benefício sai do bolso do presidente, do governador ou do prefeito. A conta é paga pela sociedade, por meio dos impostos recolhidos diariamente. Portanto, aquilo que é oferecido à população não deve ser tratado como favor, muito menos como uma dívida eleitoral.
Também nasci em um lar humilde e conheci de perto as dificuldades. Nada foi fácil em minha caminhada. Pela graça de Deus e com muito trabalho, fui à luta, enfrentei obstáculos e procurei construir meu caminho. Por isso, acredito que a maior contribuição de um governo não é manter as pessoas permanentemente dependentes de benefícios, mas criar oportunidades para que possam caminhar com as próprias pernas.
Não há vergonha alguma em receber ajuda quando ela é necessária. A verdadeira injustiça está em utilizar a necessidade humana como instrumento de convencimento político. A assistência deve socorrer no presente sem retirar do cidadão a possibilidade de construir o próprio futuro.
Luiz Gonzaga e Zé Dantas já alertavam para essa realidade na canção Vozes da Seca. O povo nordestino não desejava apenas o auxílio emergencial: pedia trabalho, água, desenvolvimento e condições para produzir. Era um apelo por oportunidades e dignidade.
É disso que o Brasil continua precisando. Precisamos de políticas sociais responsáveis, mas também de educação de qualidade, formação profissional, emprego, incentivo ao empreendedorismo e condições para que cada brasileiro possa conquistar o próprio sustento.
Ajudar quem necessita é um dever. Entretanto, transformar a gratidão por uma política pública em fidelidade eleitoral automática merece uma reflexão responsável. Entre oferecer somente um benefício e criar condições para que uma pessoa mude definitivamente de vida, sempre defenderei o segundo caminho.
A boa política social é aquela que ampara a necessidade de hoje e cria condições para que o cidadão conquiste, amanhã, sua própria independência.
*Professor universitário aposentado!