Planta exclusiva da Caatinga é descoberta por professor da Univasf e tem sua composição química descrita por pesquisadores da Instituição

A planta Isabelcristinia aromatica, única representante de seu gênero no mundo e exclusiva da Caatinga, foi descoberta por um docente da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e teve sua composição química investigada pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas de Plantas Medicinais (Neplame) da instituição. A pesquisa resultou na publicação de um artigo no Journal of the Brazilian Chemical Society (JBCS), revista científica de destaque na área, que apresenta o primeiro estudo fitoquímico da nova espécie.

O responsável pela descoberta da planta foi o docente do Colegiado de Ciências Biológicas da Univasf e diretor do Centro de Referência para Recuperação de Áreas Degradadas da Caatinga (CRAD), José Alves Siqueira. A planta foi encontrada em áreas rochosas da Caatinga, na divisa entre os estados de Pernambuco e Paraíba, e chamou atenção por ser arbustiva e apresentar um aroma marcante. A espécie foi descrita por pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

A família botânica da espécie, Linderniaceae, é comumente encontrada em áreas aquáticas, mas Isabelcristinia aromatica apresentou características incomuns, diferenciando-se das demais espécies do grupo. O nome da planta foi uma homenagem feita por um pesquisador da UFPB à docente da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Isabel Cristina Machado, que, coincidentemente, foi orientadora de doutorado de Siqueira. Atualmente, o único local onde a planta é cultivada é o CRAD.

Intitulado “Dereplication of Secondary Metabolites from Isabelcristinia aromatica (Linderniaceae) by Untargeted Tandem Mass Spectrometry-Based Molecular Networking”, o artigo foi produzido a partir da coleta e identificação do material botânico pela equipe liderada por Siqueira e do estudo químico coordenado pelo professor do Colegiado de Farmácia e coordenador do Neplame, Jackson Gudes de Almeida.

A pesquisa investigou a composição fitoquímica das folhas da Isabelcristinia aromatica. O estudo envolveu a preparação do extrato vegetal e a análise da composição química por meio da técnica de cromatografia líquida de alta eficiência acoplada à espectrometria de massas (LC-MS).

A análise por LC-MS foi realizada com o auxílio do banco de dados da plataforma Global Natural Products Social Molecular Networking (GNPS). A técnica agiliza a identificação de compostos ao comparar os dados obtidos com informações compartilhadas por pesquisadores de diversas partes do mundo, facilitando a identificação de moléculas presentes em plantas. No trabalho, foram identificadas cerca de 38 moléculas na espécie.

A análise foi realizada a partir de extratos metanólicos das folhas, permitindo a identificação de metabólitos de média e alta polaridade. Também foi feita uma nova coleta da planta, e a pesquisa segue em andamento para o isolamento dos compostos e a avaliação da atividade citotóxica do extrato vegetal. O estudo revelou que a espécie é rica em iridoides, uma classe de compostos com diversas atividades biológicas.

A identificação dos compostos presentes na planta abre caminho para novos estudos, como a avaliação da atividade citotóxica, já que os iridoides possuem reconhecida ação contra linhagens de células tumorais. “A inovação desse trabalho se dá por se tratar de uma planta nova, nunca antes descrita, e por ser o primeiro estudo químico a descrever a ocorrência de iridoides e flavonoides, compostos com atividades biológicas bastante interessantes”, comentou Almeida.

Para a realização das análises, Almeida contou com a colaboração de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, especialmente do professor Norberto Pepolini Lopes. Na época do estudo, a Univasf ainda não possuía os equipamentos necessários para realizar análises por LC-MS, sendo necessária a utilização da infraestrutura da USP. A pesquisa também contou com o apoio do professor Fausto Carnevali Neto, da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, na análise dos dados.

Para Siqueira, o estudo simboliza a integração entre diferentes áreas do conhecimento, unindo pesquisa científica e aplicação prática. Segundo o pesquisador, a planta chama atenção pela resistência, resiliência e beleza. A descoberta amplia o conhecimento sobre a biodiversidade da Caatinga e reforça a importância da valorização e preservação desse bioma exclusivamente brasileiro

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