O Vale do São Francisco exporta mais do que manga. Ao longo dos anos, a região consolidou-se como um dos principais polos da fruticultura irrigada do país e, cada vez mais, vem se destacando também como exportadora de tecnologia, conhecimento e inovação no manejo agrícola. O que antes era reconhecido pela qualidade da fruta, hoje ultrapassa fronteiras por meio da transferência de técnicas avançadas de produção e estratégias que elevam a competitividade do setor.
Com 35 anos de experiência, o produtor, técnico agropecuário, biólogo, engenheiro agrônomo e consultor em fruticultura Rogério Martins é um dos representantes dessa evolução. Ao longo de sua trajetória, ele levou o conhecimento desenvolvido no Vale para outros países, com atuação em projetos no México, na África do Sul e no Equador. “Já atuamos com consultoria nesses países, levando tecnologias e estratégias desenvolvidas no Vale. Isso mostra o reconhecimento da nossa capacidade técnica”, afirma.
Na avaliação do profissional, o Vale do São Francisco ocupa hoje uma posição estratégica no cenário internacional, principalmente pela capacidade de ofertar manga ao longo de todo o ano. “A gente trabalha por planejamento e consegue enviar manga o ano inteiro, garantindo presença em todos os momentos do mercado. Isso faz com que qualquer mercado do mundo entenda essa regularidade”, destaca.
Segundo ele, essa característica permite ao Vale ocupar espaços importantes no comércio global. “A gente acompanha as janelas de mercado, como no caso dos Estados Unidos, quando outros países não estão ofertando, e consegue atender esses períodos”, conta.
Ao mesmo tempo, o mercado interno continua sendo determinante. “Cerca de 80% da nossa produção fica no Brasil. Por isso, a gente precisa produzir o ano todo, atendendo bem tanto o mercado interno quanto o externo”, explica.
Mesmo com custos de produção, em alguns casos, superiores aos de concorrentes internacionais, a manga do Vale se diferencia pela qualidade. “Nossa fruta pode chegar um pouco mais cara, mas entrega qualidade. A gente tem padrão de coloração, de formato, qualidade de pós-colheita e um manejo nutricional que garante uma fruta melhor”, explica. Ele também destaca a confiabilidade da produção regional.
“Como temos fruta o ano todo, qualquer quebra de safra em outro país, a gente está pronto para atender”, diz.
Outro aspecto que chama a atenção dos compradores internacionais é a consistência da oferta associada à qualidade do produto. “O importador sabe que pode contar com a gente. A gente sempre vai ter fruta e com muita qualidade. Mesmo quando surgem problemas, conseguimos entregar dentro de um padrão, muitas vezes melhor que outros países”, diz.
Além da fruta, o conhecimento técnico desenvolvido no Vale do São Francisco também vem sendo exportado. “Com certeza o conhecimento do Vale está sendo aplicado em outros países. Trabalhos como o de maturação de ramos com acúmulo de reservas começaram aqui no Brasil e hoje são referência. Manejo de indução floral, nutrição, poda, tudo isso tem base no que a gente desenvolveu aqui”, ressalta.
O mercado internacional, por sua vez, tem ampliado o nível de exigência. “Hoje eles pedem muito frutos com calibre médio, entre 500 e 650 gramas.
Além disso, exigem cor, sabor, matéria seca e principalmente sanidade, com frutas chegando sem doenças, como a antracnose. Cumprir também o prazo de entrega é fundamental. A gente consegue atender isso muito bem”, pontua.
Esse conjunto de fatores reforça que a competitividade da fruticultura do Vale do São Francisco está diretamente ligada à profissionalização, ao planejamento e à capacidade de adaptação. Esse movimento se fortalece com iniciativas de capacitação técnica, como a imersão “DNA da Manga”, que será realizada de 23 a 25 de abril, em Petrolina, reunindo produtores em uma experiência prática conduzida por Eduardo Ferraz, especialista com mais de três décadas de atuação em áreas de alta produtividade.
Daniela Duarte/Jornalista