Com o apoio do antigo chefe, ex-assessor atua como subsecretário de Segurança na cidade
Pivô da investigação sobre rachadinha envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o policial militar reformado Fabrício Queiroz mantém influência em cargos públicos, oito anos depois, sob a guarida de aliados do antigo chefe. Desde o ano passado, o ex-assessor de Flávio é subsecretário de Segurança e Ordem Pública de Saquarema, na Região dos Lagos do Rio, graças a uma costura com o ex-prefeito Antonio Peres, que comanda o diretório municipal do PL. Queiroz também emplacou em 2025 o filho, Felipe, como assessor na secretaria estadual de Ciência e Tecnologia, comandada pelo deputado bolsonarista Anderson Moraes (PL).
Dois interlocutores de Queiroz ouvidos pelo GLOBO afirmam que a nomeação na prefeitura de Saquarema foi um ajuste entre Peres e Flávio Bolsonaro — que antes havia tentado alocar o ex-assessor em Campos dos Goytacazes, mas teve portas fechadas pelo então prefeito Wladimir Garotinho. Peres é aliado de longa data do deputado federal Altineu Côrtes (PL-RJ).
Queiroz já havia feito amizades em Saquarema ainda na campanha de 2018, quando acompanhava Flávio na montagem de candidaturas do extinto PSL. À época, ele conseguiu emplacar o filho em um time de futebol em Saquarema, e recebia carona de moradores para se deslocar à cidade e assistir às partidas.
Na política local, a avaliação é que o cargo na prefeitura contribui para “tranquilizar” Fabrício Queiroz, que já reclamou em 2022 por se sentir abandonado pela família Bolsonaro em sua frustrada candidatura a deputado estadual pelo PTB. Procurado, Queiroz afirmou ter sido orientado pela prefeitura de Saquarema a não dar entrevista.
— Por mim, não teria problema nenhum falar, mas esse é um ano eleitoral e não quero correr o risco de perder o cargo no município —justificou Queiroz em telefonema ao GLOBO.
Em 2024, ele concorreu a vereador pelo PL e terminou como primeiro suplente em Saquarema. Caciques locais do partido cogitaram nomear um dos três vereadores do PL na prefeitura, para abrir espaço a Queiroz na Câmara. O plano não foi adiante porque o próprio Queiroz acabou nomeado.
Na secretaria, comandada por um sargento da PM, Queiroz virou uma espécie de “xerife”: ele supervisiona a atuação da Guarda Municipal e costuma dar as caras em eventos dentro e fora da cidade. Em março, por exemplo, ele acompanhou o então secretário estadual de Cidades, Douglas Ruas (PL), e o ex-governador Cláudio Castro (PL) na inauguração de uma base do Segurança Presente em Saquarema. No fim do ano passado, posou ao lado de Flávio e do então secretário de Polícia Militar, Marcelo Menezes, em uma cerimônia em homenagem aos policiais que participaram da megaoperação no Complexo da Penha, que terminou com 122 mortos.
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Guarda armada
Em Saquarema, Fabrício Queiroz já defendeu o uso de arma de fogo pela Guarda Municipal, proposta que por ora não foi adiante. No ano passado, a secretaria lançou uma “ronda ostensiva municipal” com uniformes e viaturas similares às da Polícia Militar. No início deste ano, Queiroz —que é subtenente reformado da PM —renovou seu porte de arma de fogo, embora interlocutores na cidade afirmem que ele não é visto andando armado.
Queiroz chegou a ser denunciado pelo Ministério Público do Rio (MP-RJ) como um dos operadores de um esquema de recolhimento ilícito de salários de assessores de Flávio Bolsonaro, na Assembleia Legislativa do Rio, que veio à tona em 2018. O caso acabou arquivado pela Justiça do Rio, na esfera criminal, após uma longa discussão sobre em qual instância deveria ter tramitado, o que levou tribunais superiores a anular uma série de provas obtidas pelo MP.
Em entrevistas recentes, Flávio procurou transferir para Queiroz a responsabilidade do desvio de recursos em seu gabinete, e disse que o ex-assessor tinha “autonomia” no trato com outros funcionários. O próprio Queiroz, que recebeu depósitos de R$ 2,079 milhões de assessores entre 2007 e 2018, chegou a dizer à Justiça do Rio que os pagamentos foram “sem anuência” de Flávio.
O MP, porém, procurou desmontar essa versão na denúncia original, e anexou mensagens de Queiroz nas quais ele admitiu que precisava “prestar contas” da rachadinha a seus superiores. Os promotores também mostraram que Queiroz fez um depósito de R$ 25 mil em espécie, em agosto de 2011, na conta bancária da mulher de Flávio. O depósito ocorreu dias antes de ela pagar a primeira parcela da compra de um apartamento em Laranjeiras, na Zona Sul do Rio.
Em ocasiões posteriores, entre 2014 e 2018, o MP apontou que Flávio recebeu R$ 275 mil em depósitos fracionados, quase sempre de R$ 2 mil cada, o que permitia “burlar a obrigatoriedade de identificação dos depositantes”.
Quando os indícios de rachadinha vieram à tona, Queiroz atuou junto ao advogado Gustavo Botto para alinhar depoimentos de ex-assessores de Flávio — embora Botto estivesse formalmente constituído como advogado de Flávio, conforme apontou o Ministério Público.
Anos depois, e apesar da tentativa atual de distanciamento, Flávio e Queiroz voltaram a trocar demonstrações de fidelidade. Na campanha de 2024, o senador foi a Saquarema, chamou Queiroz de “candidato do Bolsonaro” e pediu votos para o ex-assessor se eleger vereador.
— Para entrar na política tem que ter couro grosso, e o Queiroz tem. A gente está do lado certo da história. (…) Quero voltar com o presidente Bolsonaro aqui em Saquarema para dar um abraço na (atual prefeita) Lucimar e no Queiroz — declarou Flávio na ocasião.
Procurado, o senador não se manifestou. A prefeitura de Saquarema informou, em nota, que a nomeação de Queiroz “atendeu estritamente a critérios técnicos”, e citou o fato de ele ser “um PM reformado com 30 anos de experiência”. A secretaria estadual de Ciência e Tecnologia não respondeu sobre a atuação de Felipe Queiroz na pasta.