A canção parte de uma constatação simples: nas redes sociais, quase tudo é recorte. Postamos o que queremos mostrar, filtramos o que dói, editamos a rotina e transformamos a vida em vitrine. Estamos hiperconectados e, ainda assim, isolados. O resultado é uma existência artificial, construída por imagens e performances “uma vida quase real”, como diz um dos trechos da canção.
A crítica, no entanto, não se limita ao ambiente virtual. A música amplia o debate ao tocar em desigualdades sociais estruturais. Em um dos trechos mais contundentes, o artista afirma: “Dói ser preto, sim”. A partir daí, a canção conecta violência simbólica, exposição digital e a transformação de vidas negras em números e estatísticas. O algoritmo, nesse contexto, não é neutro, pois também reproduz hierarquias.
Para Maércio José, vocalista e compositor da banda, a música nasce de sua percepção pessoal de que a superficialidade digital não é apenas estética, mas estrutural. “A gente vive num tempo em que tudo vira vitrine: o amor, a dor, a opinião. ‘Qualquer Um é Um Zé’ fala dessa sensação de ser só mais um perfil no meio de milhões, enquanto questões reais, como o racismo e a falta de afeto, continuam atravessando nossas vidas. O reggae entrou como base porque carrega essa tradição de consciência, mas a gente quis trazer isso para o agora, para a era do algoritmo e da solidão conectada”, afirma.
“Qualquer Um é Um Zé” já está disponível nas plataformas de streaming e pode ser ouvida em: http://tratore.ffm.to/