Morre o ex-deputado Carlos Cadoca: Jarbista afável, mas também brigão

Blogdomagno – 

A morte do ex-deputado Carlos Eduardo Pereira, o Cadoca, hoje de madrugada, aos 80 anos, consequência da pandemia do coronavírus,  é mais um capítulo triste escrito no rastro desse mal do século, que já nos tirou do convívio tantas almas boas e amadas. Convivi de perto com Cadoca muito mais em Brasília do que em Pernambuco, onde fez carreira na vida pública ainda jovem advogado, filiado ao MDB, partido que foi um dos fundadores e pelo qual combateu firmemente à ditadura militar.

Ativista de esquerda, advogado com especialidade em Harvard, nos EUA, Cadoca viveu, ao lado de Jarbas Vasconcelos, a quem foi extremamente ligado, e outras lideranças de envergadura nacional, como Cristina Tavares, Egídio Ferreira Lima, Fernando Lyra e Miguel Arraes, momentos que dignificam a vida pública e fazem o verdadeiro espetáculo da política em defesa de causas nobres, o bom combate do Eclesiastes.

Eleito vereador do Recife em 1982, fez um belo mandato, criando elo com os movimentos populares. Foi a partir daí que passou a ser carimbado como um parlamentar que conhecia Recife e suas chagas na palma da mão como ninguém. Na verdade, depois de assumir a Secretaria de Turismo no Governo Jarbas e ser protagonista do Recifolia, tendo papel fundamental na restauração do Recife Antigo, bairro da nostalgia e boemia, Cadoca virou a cara do Recife. Era o político mais identificado com a cidade.

Recife fazia seu coração pulsar forte, mas nunca o abraçou como prefeito. Cadoca foi derrotado duas vezes em eleições majoritárias. A primeira em 2004, com apoio de Jarbas, o então maior cabo eleitoral da cidade, perdeu para João Paulo, e a segunda, quatro anos depois, arrastado ao infortúnio por João da Costa, o poste eleito por João Paulo.

O Recife não se casou com Cadoca, mas seu eleitorado também não se desgarrou. Teve quatro mandatos de deputado federal com consagradoras votações, e um estadual antes. Quando partiu para o quinto, não se elegeu, ficando na primeira suplência. Exerceu, no entanto, porque André de Paula, eleito, assumiu a Secretaria de Cidades, abrindo uma vaga na bancada federal.

Cadoca foi um dos discípulos mais fiéis a Jarbas Vasconcelos, por quem, também, alçado a todos os cargos públicos que ocupou. No meu livro Histórias de Repórter revivo um episódio que dá a exata noção do que Cadoca era capaz de fazer para ajudar o amigo Jarbas. Coordenador geral da campanha de Jarbas a governador em 1990, Cadoca deu uma de agente secreto.

Desconfiado que os estrategistas do mal da campanha adversária de Joaquim Francisco, a qual coordenei a área de Imprensa, estavam aprontando uma pesada contra Jarbas, Cadoca teve a audácia de me ligar se passando como repórter do Jornal do Brasil.

Botou um pano na boca para disfarçar a voz, ligou para o comitê à minha procura e comigo ficou uns 30 minutos tentando checar informações que corriam nos bastidores que poderiam desestabilizar de vez a campanha do seu aliado, derrotado por Joaquim. Cadoca se deu tão bem no disfarce de repórter que eu só soube da pegadinha 20 anos depois, contada por ele próprio. Era um segredo de estado que iria levar para o túmulo.

Cadoca era um político extremamente dedicado ao que fazia, com muito prazer e amor, diga-se de passagem. Foi um longo adolescente, nunca demonstrou fisicamente a idade que tinha por ser festivo, envolvido com jovens, público que criou afinidade pelo Recifolia. Era também pavio curto, não levava desaforo para casa nem temia os poderosos.

Cadoca, por fim, criou também fama de brigão. Comigo mesmo, vivemos altos e baixos, mas ele tinha a enorme capacidade do perdão e da humildade. Boa fonte, alegre e divertido, bom pai e amigo. Fará muita falta.

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