Especial: Quem descobriu o Brasil? Pedro Álvares Cabral? Há controvérsias

Na história tradicional, com viés eurocêntrico, tornou-se comum afirmar que Pedro Álvares Cabral, líder da expedição portuguesa, foi o responsável pelo descobrimento do Brasil. Entretanto, a historiografia atual não reforça esse viés, apontando que não houve descobrimento do Brasil, mas, sim, a chegada dos portugueses.

Nesse sentido, outros historiadores trabalham com outros conceitos, como “encontro”, “achamento”, e alguns falam até em “invasão”. O questionamento ao termo se deu porque a palavra “descobrimento” reforça um ponto de vista português e eurocentrado, uma vez que não houve descobrimento algum já que a terra era habitada por milhões de indígenas, espalhados por todo o território em questão.

Desse ponto de vista, não há descobrimento, mas há a chegada dos portugueses ao Brasil, o que lhes permitiu conhecerem uma terra que já era habitada pelos indígenas havia cerca de 11 mil anos, no mínimo.

Contexto histórico do “descobrimento do Brasil”

A chegada dos portugueses ao Brasil foi um dos maiores momentos das grandes navegações, processo iniciado pelos portugueses no século XV. As grandes navegações são como conhecemos as expedições exploratórias, organizadas pelos portugueses, no Oceano Atlântico ao longo desse século. Isso só foi possível graças a uma série de fatores.

Primeiro, a unificação territorial. O território nacional de Portugal foi consolidado em 1249, quando o rei d. Afonso III conseguiu conquistar definitivamente Algarve (região sul de Portugal) dos mouros. Outro fator importante foi a estabilidade política que o país experimentou a partir do final do século XIV.

Entre 1383 e 1385, aconteceu no país a Revolução de Avis, responsável por colocar João, mestre de Avis, no trono de Portugal. Com essa revolução, a dinastia Borgonha teve fim, e a nova dinastia, a de Avis, iniciou-se. Portugal experimentou uma grande estabilidade política que possibilitou ao país vivenciar um desenvolvimento comercial e tecnológico, o que incluiu o desenvolvimento náutico.

Além disso, a localização geográfica de Portugal garantia acesso fácil às correntes marítimas do Oceano Atlântico, e o desenvolvimento comercial de Lisboa tornava a cidade um centro importante. Por fim, a necessidade de encontrar uma nova rota para o Oriente — já que a usual, que passava por Constantinopla, havia sido fechada em 1453 — reforçou a exploração dos oceanos pelos portugueses.

Esses fatores nos ajudam a entender por que Portugal se lançou pioneiramente na exploração dos oceanos e por que as grandes “descobertas” do século XV foram realizadas por portugueses. A única grande exceção foi a expedição de Cristóvão Colombo, navegante genovês que chegou à América, em 12 de outubro de 1492, em uma empreitada financiada pela Espanha (Portugal recusou-se a financiar a expedição de Colombo).

No contexto da chegada dos portugueses ao Brasil, Portugal estava desfrutando o auge do comércio de especiarias da Índia, mercadorias oriundas da Ásia como pimenta-do-reino, noz-moscada, perfumes e incenso, que, por sua raridade no mercado europeu, eram valiosíssimas. A procura por uma nova rota para Índia era justamente para garantir o acesso a essas mercadorias.

Depois que os espanhóis chegaram à América, em 1492, as terras recém-descobertas começaram a ser disputadas por portugueses e espanhóis. Foi dessa preocupação dos portugueses em conter a expansão espanhola que saíram dois acordos: a bula Inter Caetera (1493) e o Tratado de Tordesilhas (1494).

Esses dois documentos dividiram as novas terras entre Portugal e Espanha, e o último estipulou a seguinte divisão: a 370 léguas, a oeste do arquipélago de Cabo Verde, seria passada uma linha imaginária. As terras a oeste dessa linha seriam espanholas, e as terras a leste dessa linha seriam portuguesas.

Como foi o “descobrimento do Brasil”?

Selo com a imagem de Pedro Álvares Cabral, líder da expedição que levou ao "descobrimento do Brasil" em 1500.
Pedro Álvares Cabral foi o escolhido para capitanear a expedição portuguesa que chegou ao Brasil em 22 de abril de 1500.

Nesse contexto de exploração das possibilidades de terra no oeste e de realização de comércio na Índia, Portugal organizou uma nova expedição. O nome escolhido para liderá-la foi o de Pedro Álvares Cabral, cavaleiro da Ordem de Cristo desde 1494 (importante ordem de cavaleiros). Os historiadores não sabem ao certo por que Cabral foi escolhido para ser o líder da expedição, já que existiam outros navegadores mais experientes que ele, como Bartolomeu Dias.

A expedição de Pedro Álvares Cabral (foto) contava com 13 embarcações, sendo nove naus, três caravelas e uma naveta de mantimentos. Os líderes de cada uma das embarcações eram: Pedro Álvares Cabral, Sancho Tovar, Simão de Miranda de Azevedo, Aires Gomes da Silva, Nicolau Coelho, Nuno Leitão da Cunha, Vasco de Ataíde, Bartolomeu Dias, Diogo Dias, Gaspar de Lemos, Luís Pires, Simão de Pina e Pero de Ataíde.|1|

A expedição de Cabral também contava com 1200 a 1500 homens, que zarparam de Lisboa no dia 9 de março de 1500. Após zarpar, a expedição navegou diretamente para o arquipélago de Cabo Verde, portanto, tomou uma rota distante da costa africana. A rota usual dos portugueses no rumo da Índia era mais próxima da costa, mas o caminho distinto sugere que eles tinham um roteiro diferente das demais expedições.

A rota da expedição de Cabral foi a seguinte:

  • 9 de março: zarparam de Lisboa.
  • 14 de março: passaram pelas Ilhas Canárias.
  • 22 de março: passaram por Cabo Verde.
  • 23 de março: desaparecimento da nau de Vasco Ataíde.
  • 29 e 30 de março: adentraram a região de calmaria na zona equatorial.
  • 10 de abril: passaram a 210 milhas de Fernando de Noronha.
  • 18 de abril: estavam próximos da Baía de Todos os Santos.
  • 21 de abril: avistaram sinais de aproximação de terra.
  • 22 de abril: avistaram o Monte Pascoal.|2| |3|

O avistamento de terras, que aconteceu no dia 22 de abril de 1500, foi relatado por Pero Vaz de Caminha, escrivão da expedição, da seguinte maneira:

No dia seguinte [22 de abril] — quarta-feira pela manhã — topamos aves a que os mesmos chamam de fura-buchos. Neste mesmo dia, à hora de vésperas [entre 15h e 18h], avistamos terra! Primeiramente um grande monte, muito alto e redondo; depois outras serras mais baixas, da parte sul em relação ao monte e, mais, terra chã. Com grandes arvoredos. Ao monte alto o Capitão deu o nome de Monte Pascoal; e à terra, Terra de Vera Cruz.|4|

Apesar de terem avistado terra no dia 22 de abril, foi só no dia seguinte que Cabral decidiu enviar homens, e foi aí que os primeiros contatos entre portugueses e nativos aconteceram. O relato de Pero Vaz de Caminha sobre eles afirmou que “eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse as suas vergonhas. Traziam nas mãos arcos e flechas”.|5|

Essa primeira expedição que marcou os contatos iniciais entre portugueses e nativos foi comandada por Nicolau Coelho. Ele e outros homens foram enviados para as margens da praia, em um bote, a fim de estabelecer uma relação com os indígenas, e esses contatos, naturalmente, foram pacíficos. Em uma outra passagem sobre os nativos, Pero Vaz de Caminha afirma que:

A feição deles é parda, algo avermelhada; de bons rostos e bons narizes. Em geral são bem-feitos. […] Ambos […] traziam o lábio de baixo furado e metido nele um osso branco e realmente osso, do comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do lábio, e a parte que fica entre o lábio e os dentes é feita à roque de xadrez, ali encaixado de maneira a não prejudicar o falar, o comer e o beber.|6|

O contato foi calmo, houve troca de presentes entre as duas partes, e alguns dos indígenas foram levados à embarcação onde estava o capitão-mor, Cabral, para que ele os conhecesse. Foram-lhes dados alimentos e vinho, mas eles rejeitaram a comida e não gostaram do que experimentaram, segundo o relato de Caminha.

Os portugueses seguiram mais alguns dias explorando a costa brasileira. No dia 26 de abril, um domingo, celebraram a primeira missa no Brasil, realizada pelo frei Henrique de Coimbra. Depois, os comandantes da expedição decidiram enviar uma embarcação para Portugal com a notícia do achamento da nova terra. Pero Vaz de Caminha também foi nomeado para relatar, com detalhes, as novidades das terras encontradas.

No dia 2 de maio, a expedição de Cabral partiu do Brasil em direção à Índia. O rei português, d. Manoel I, ficou sabendo da notícia do achamento da nova terra ainda em 1500. Apesar disso, o Brasil ficou em segundo plano, uma vez que a prioridade portuguesa, naquele momento, era continuar o comércio com a Índia.

Fonte: Brasil Escola

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