João Gomes, Melody, Luísa Sonza… por que o público não está entendendo o que eles cantam?

g1 – 

Nas redes sociais, o público tem falado bastante a respeito da cantoria de alguns artistas brasileiros. As queixas variam entre deboche e frustração: “João Gomes tem uma dicção pior do que a minha” ou “é impossível entender uma única palavra que a Luísa Sonza está cantando nessa música nova”.

A caixinha de reclamações ainda tem espaço para mais. De hits como “Pipoco” e “Assalto Perigoso” de Melody até o sertanejo de Zezé Di Camargo & Luciano, há uma reclamação frequente entre o público: parece que nem todo mundo está entendendo o que está sendo cantado.

g1 ouviu especialistas para tentar desvendar se o que o público contesta é, na verdade, uma escolha estética, uma influência internacional, uma questão de dicção ou tudo ao mesmo tempo. Confira abaixo.

Quatro explicações possíveis… no mínimo

De acordo com o professor de canto Adailton Silva, a forma como um artista canta é resultado de uma construção moldada por diversos fatores. Ele elenca os quatro fundamentais:

Físico: Envolve desde a anatomia do diafragma até a respiração natural que podem tornar a voz mais anasalada.

Técnico: É o uso consciente de “ornamentos” como melismas (várias notas em uma sílaba), apogiaturas e drives, que alteram a estética sonora original.

Tecnológico: O uso de efeitos de estúdio, como reverb, eco e corretores de afinação (melodrame), que mexem na textura final da voz gravada. Também a qualidade do som em apresentações ao vivo.

Cultural e de estilo: Sotaques e gírias influenciam não apenas a pronúncia das palavras, mas também o tom e a cadência da fala. O mesmo vale para outros idiomas. Também influenciam os estilos que os artistas cresceram ouvindo, claro, e acabam incorporando em sua assinatura.

João Gomes, Luiz Gonzaga e o canto de aboio

E é justamente esse pilar cultural, que Adailton chama de “primeira digital da voz”, que pode ajudar a decifrar a estética por trás do canto “embolado” de João Gomes.

“Se você reparar nos cantores da mesma região, como o próprio Luiz Gonzaga, eles cantavam de um jeito semelhante. Isso acontece porque a região sofreu muita influência do aboio, o canto usado para tocar o gado”, afirma.

Para Rafael Dantas, treinador vocal, o cantor do piseiro é um exemplo de como a personalidade reflete diretamente na voz. “Eu vejo o João Gomes como uma pessoa muito tímida e autêntica. Ele canta como se estivesse conversando em casa, numa região confortável para a voz dele”, analisa.

Melody e seus falsetes…

No caso da cantora pop Melody, famosa pelos seus passeios de jetskis e falsetes, o nó na compreensão do público pode residir no uso dos “lugares de ressonância”.

Os professores explicam que os antigos termos “voz de peito” (notas graves) e “voz de cabeça” (notas agudas) referem-se, na verdade, a ajustes musculares e sensações de vibração no corpo.

Essa técnica é levada ao extremo da nasalidade pela cantora Melody. Embora Rafael elogie o timbre da artista, ele aponta que a escolha por essa sonoridade “fanha” é uma faca de dois gumes:

“É um lugar gostoso de cantar e garante uma vida vocal mais longa, pois não exige grandes esforços das pregas vocais. Mas se o som vaza pelo nariz, como é o caso dela, ninguém entende direito o que está sendo dito”, explica.

Adailton cita ainda o peso da tecnologia nessa “estética vocal final”. O uso de efeitos em estúdios como reverb, eco e corretores de afinação (como o Melodyne) podem criar uma camada na textura da voz a ponto de parecer “robótica”.

Essa combinação de ressonância nasal com processamento tecnológico ajuda a criar a sonoridade característica dos hits de Melody, é verdade. Mas também parece levantar uma barreira entre o que é cantado e o que é compreendido.

Luísa Sonza e a influência do ‘canto americano’

O caso de Luísa Sonza é o exemplo de quando o estudo técnico esbarra no idioma. Segundo Rafael, ela domina a técnica, mas na hora de passar isso para o português, a clareza das palavras acaba saindo prejudicada.

A cantora é influenciada musicalmente por uma escola americana de canto: uma técnica focada em grandes palcos, microfones de alta sensibilidade e coreografias complexas. O problema é quando ela leva essa técnica ao canto em português.

“Quando a gente diz que a voz ‘bate no nariz’, na verdade estamos falando de uma ressonância na frente do rosto. Mas, como no Brasil nossa referência de frente é o nariz, muitos artistas acabam apoiando o som lá, e isso vira uma coisa bem fanha”, diz.

Segundo ele, o nosso idioma é uma língua “pesada” e muito silábica, o que gera um conflito estético quando se tenta aplicar a leveza do agudo americano às nossas palavras.

Após o lançamento do novo álbum de estúdio “Brutal Paraíso”, em 7 de abril, Luísa Sonza recebeu diversos comentários por parte do público de que não estaria conseguindo entender as letras.

Além da técnica de canto, outro fator que se aplica nesse caso é a mixagem, isto é, o processo de equilibrar e processar múltiplas faixas de áudio (instrumentos, voz e efeitos).

A crítica não foi por apenas em uma ou duas faixas. Em boa parte do álbum, a voz de Luísa está “mergulhada” nos instrumentos. Isso pode ser uma escolha estética, mas torna a compreensão ainda mais complicada.

Por que um artista pode soar melhor em inglês?

Essa “desconexão” por parte do público explica por que muitos fãs comentam que Luísa Sonza e outras artistas “cantam melhor” quando interpretam músicas internacionais.

“Os fonemas do inglês são mais fáceis de pronunciar em determinadas notas agudas do que os nossos. O português, por ser muito rígido nas sílabas, não fica tão ‘bonito’ nessa estética americana”, analisa Adailton.

Sertanejo, o nosso ‘rock americano’

A mesma tendência aparece no sertanejo. A busca por notas altíssimas transformou o estilo em uma espécie de equivalente nacional às baladas norte-americanas, exigindo um preparo vocal específico.

“O sertanejo vai muito para esse lugar do rock americano. A gente não tem rock cantado em português com essa altura e esses agudos. Para nós, o nome disso é música sertaneja”, explica Rafael Dantas.

Ele cita Xororó como o grande exemplo de domínio técnico: “Ele busca uma leveza para as notas agudas que é absurda. Parece a mesma voz de 40 anos atrás porque ele buscou a forma do canto, e não apenas o som”.

O risco, segundo o especialista, é quando o artista tenta imitar o som agudo sem a técnica correta, como aconteceu com Zezé Di Camargo.

Mulheres do sertanejo e o ‘grave de respeito’

No caso das mulheres, o debate ganha ainda uma camada cultural. O professor explica que vozes graves são associadas à credibilidade e imposição.

Por isso, artistas como Paula Fernandes, Simone Mendes e Marília Mendonça trouxeram o grave para o centro de suas músicas, mesmo precisando alcançar notas altas.

Marília Mendonça: Para o especialista, Marília demonstrava uma técnica superior, transitando com fluidez entre graves e agudos.

Simone Mendes: Busca o conforto na região que já domina, enfrentando os agudos até onde o limite vocal permite.

Paula Fernandes: É apontada como alguém que canta em uma região confortável, mas com uma articulação “entre os dentes”, o que pode dificultar a clareza para alguns ouvintes.

O que pode ser feito para melhorar a compreensão?

Para os professores, o caminho é trabalhar mais a articulação. Um deles, Rafael, explica que muitos cantores brasileiros têm um certo medo de “abrir demais a boca” ou de fazer caretas, porque querem estar sempre bonitos para a câmera.

Mas é justamente esse contorno facial e essa abertura que trazem clareza para as consoantes.

“Compare com uma Beyoncé: ela faz caretas, abre a boca, mexe muito a boca, e a gente entende tudo o que ela canta, mesmo dançando” , comenta.

No Brasil, os artistas também precisam, cada um à sua maneira, encontrar esse equilíbrio: seguir com seu estilo próprio e manter a voz confortável, mas não deixar o público perder a mensagem que está sendo dita.

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