Gabriel Castro, de VEJA/ Brasília
Ministro do Desenvolvimento, Armando Monteiro Neto (André Coelho/Agência o Globo)
O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro Neto, é um dos nomes menos contestados da nova equipe da presidente Dilma Rousseff. Além de ser um parlamentar com fama de moderado e de poucos inimigos, ele presidiu durante oito anos a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o que lhe dá legitimidade para ocupar um cargo importante para o setor. Filiado ao PTB, Monteiro tem diante de si um desafio significativo: a retomada do equilíbrio da balança comercial brasileira após um recorde negativo em 2014. Leia entrevista ao site de VEJA.
O senhor apoiou os governos Lula e Dilma. Não são eles os responsáveis pelos problemas que o senhor apontou em discurso logo após ser nomeado, como a falta de infraestrutura e de competitividade da indústria?
Na verdade, o problema da balança comercial vem de décadas. São problemas estruturais, como a falta de infraestrutura e o custo da mão de obra, que não se resolvem em um ou dois governos. Durante muito tempo, os únicos investimentos nessa área eram os feitos pelo Estado. Só recentemente é que ocorreram concessões. E as concessões de ferrovias, por exemplo, não tiveram os efeitos positivos que nós esperávamos. As concessionárias se transformaram em donas das vias. Também tivemos muita dificuldade na aprovação de alguns marcos regulatórios. Basta ver a demora na aprovação da medida provisória dos Portos. Mas o governo Dilma fez uma desoneração de 20% na contribuição patronal na folha de pagamento e determinou uma série de concessões. Então eu diria que não avançamos tanto quanto poderíamos, mas não ficamos estagnados.
Ainda assim, em 2014 o resultado da balança comercial foi o pior da história. O que aconteceu nos últimos anos foi que houve um aumento considerável do salário mínimo, o que motivou o aumento dos salários médios da indústria, mas a produtividade não aumentou da mesma forma. Aumentaram também alguns benefícios atrelados ao salário. Isso eleva os custos para o empregador e faz as empresas perderem competitividade.
Então os benefícios sociais acabaram por ter um efeito negativo? A elevação do salário mínimo e a criação de uma rede de inclusão social com o Bolsa Família têm um efeito muito positivo, que é aumentar a massa de consumidores. E o consumo sustentou o crescimento da economia durante os últimos anos. Ao mesmo tempo, esses custos criam dificuldades para o exportador.
Como recuperar saldo da balança em 2015? Tenho conversado muito com o Itamaraty sobre a importância de acordos comerciais. É primordial que o Brasil diversifique seus parceiros comerciais e amplie os mercados. Os Estados Unidos, nosso maior parceiro, estão iniciando uma recuperação econômica, o que deve nos ajudar. Existe uma sinalização de aumento na taxa de juros. Isso tende a gerar uma valorização no dólar, que deve se fixar num patamar mais elevado. Não temos problemas alfandegários com eles, apenas alguns ajustes que precisam ser negociados. Também há a previsão de uma grande safra agrícola para 2015 no Brasil. Outro fator é a conta petróleo. Nós perdemos 20 bilhões de dólares em 2013 e 16 bilhões de dólares em 2014 por causa da importação de petróleo. Com a queda no preço do barril, teremos um efeito imediato. Só a recuperação da conta petróleo deve repor o déficit que nos tivemos em 2014. Além disso, tenho certeza que os investimentos vão retomar com as medidas anunciadas recentemente pelo governo. O ajuste é para valer, e os investidores vão notar isso. O efeito será benéfico, apesar de em um primeiro momento ele poder causar incômodo.
O senhor participou da elaboração das medidas econômicas? Não participei da elaboração, mas da discussão sobre elas participei ativamente. Tenho tido espaço para apresentar nossa visão sobre o tema.
O senhor critica o controle artificial do dólar pelo governo. A gestão atual concorda?Sim. No passado, houve um controle artificial do dólar, com a tese de que isso ajudaria a controlar a inflação. Mas isso prejudicou as exportações porque tirou competitividade das indústrias. Tanto que, com a subida recente do dólar, a queda do real foi mais acentuada do que outras moedas. Foi um ajuste natural.
Existe um patamar ideal do dólar para a exportação? É complicado falar em dólar ideal. Pode parecer que eu estou determinando o valor que o dólar deve ter.
O relatório Focus fala em US$ 2,80. É suficiente? Creio que é cedo para avaliar.
O dólar, por si só, deve reverter o resultado negativo? Sem dúvida essa valorização do dólar tem um efeito significativo, até porque ele também torna as importações mais caras. Ou seja: atua dos dois lados da balança. Mas não vai resolver o problema de forma isolada.
Quão grande é a preocupação com as exportações de industrializados? É a nossa prioridade. O setor industrial foi o que mais perdeu nos últimos anos. Hoje os produtos industrializados representam cerca de 35% das nossas exportações. Eles já foram mais de 50%. Vamos dar uma atenção especial a esse setor, intensificando as negociações comerciais. E temos projetos para aumentar competitividade, oferecer mais crédito, incentivar a inovação e promover desonerações.
Isso não pode ser prejudicado pelo contingenciamento de recursos do Orçamento? Nós temos a capacidade de construir bons resultados com uma aplicação eficiente dos recursos.
A presidente às vezes dá a impressão de que está enclausurada justamente num momento em que o país precisa de comando. O governo ainda não tem clareza de como agir diante da perspectiva de crise econômica? A presidente tem plena consciência do que é preciso fazer. Tenho contato frequente com ela e não há qualquer dúvida quanto às decisões que precisa tomar. Ela tem tido uma participação ativa nessas medidas econômicas, que em breve surtirão efeito.
Quando? Em seis, oito, dez meses.
O governo não cometeu estelionato eleitoral ao omitir a situação delicada da economia durante as eleições? Não acredito que houve isso. O governo adotou medidas anticíclicas nos últimos dois anos, para incentivar o consumo, como as desonerações. Pode-se agora discutir os resultados dessa medida, mas no mundo todo é assim que se faz. Acontece que essa política causou um desequilíbrio nas contas públicas que agora é preciso ajustar. E o governo já começou a fazer isso.
A presidente não deveria ir a público e agir com mais transparência para explicar o ajuste? Ela já fez isso em duas ocasiões de forma muito clara: em sua diplomação e no discurso de posse que fez no Congresso. Ali ela apresentou quais seriam as linhas de seu segundo mandato.
Analistas afirmam que o governo ainda gasta em excesso apesar dos cortes recentes. Para o exportador, quando se fala em gastos públicos o impacto é por meio da carga tributária, que de fato tem efeito sobre o resultado das exportações. Mas creio que o governo atual não tem participação nisso. O salto mais significativo foi lá atrás, quando passamos de 25 para 35% de carga tributária. E isso quem decide é a sociedade. Ela apresentou demandas ao Congresso, que concedeu benefícios e isso impactaou nos gastos da máquina pública.
O senhor acha que o governo e o Congresso ignoram os custos desses benefícios no Orçamento? Creio que a sociedade e o Congresso nem sempre levam em consideração o custo que algumas demandas trazem para o setor produtivo. O governo não gera riquezas; então, o custeio desses programas recai sobre o contribuinte e o setor produtivo.
A presidente Dilma tem 39 ministros. O senhor já viu alguma indústria com 39 diretores?Depende da complexidade da empresa. E no governo muitos ministérios são secretarias com status de ministério, que se perdessem o status não implicariam em nenhuma redução de custo porque a estrutura administrativa não seria desfeita.
O senhor chegou ao cargo pela filiação partidária, pela proximidade com o ex-presidente Lula ou pelo currículo? Acredito que fui escolhido por dois fatores. Primeiro, pelo meu histórico na área industrial. Segundo, por minha minha boa interlocução política, o que também é importante nesse cargo. E, apesar de meu partido ter apoiado o candidato de oposição, as bancadas da Câmara e do Senado estiveram com a presidente Dilma.
O senhor concorda que Lula deve ser o candidato em 2018? É muito cedo para falar sobre 2018. Tenho muito trabalho a fazer aqui no ministério; meu foco são os projetos a implementar nesses quatro anos.