{"id":151782,"date":"2016-12-05T08:03:09","date_gmt":"2016-12-05T11:03:09","guid":{"rendered":"http:\/\/quersaberpolitica.com.br\/2016\/?p=151782"},"modified":"2016-12-04T17:04:09","modified_gmt":"2016-12-04T20:04:09","slug":"morreu-ferreira-gullar-o-maior-poeta-brasileiro-da-atualidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdofarnesio.com.br\/?p=151782","title":{"rendered":"MORREU FERREIRA GULLAR, O MAIOR POETA BRASILEIRO DA ATUALIDADE"},"content":{"rendered":"<header>\n<h1 style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"author\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><b>PAULO WERNECK\/MORR<\/b>ESPECIAL PARA A <b>FOLHA<\/b><\/p>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"content\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Ferreira Gullar, poeta, ensa\u00edsta, cr\u00edtico de arte, tradutor, bi\u00f3grafo e colunista da <b>Folha<\/b> desde 2005, morreu por volta das 10h deste domingo (4), aos 86 anos. Sua neta, Celeste, confirmou a morte. Ele estava internado no hospital Copa D&#8217;Or, no Rio de Janeiro, h\u00e1 cerca de 20 dias devido a insufici\u00eancia respirat\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Maria Am\u00e9lia Mello, amiga e editora de Gullar na Jos\u00e9 Olympio e tamb\u00e9m de seu \u00faltimo livro, &#8220;Autobiografia Po\u00e9tica e Outros Textos&#8221; (Editora Aut\u00eantica), o poeta morreu de pneumonia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com grande independ\u00eancia, quase sempre remando contra a corrente no poder, Gullar frequentou diferentes regi\u00f5es de um amplo espectro ideol\u00f3gico. Renovador da linguagem po\u00e9tica e te\u00f3rico da vanguarda, anos mais tarde ele enxergaria com olhos severos os rumos da arte contempor\u00e2nea. Militante comunista, fez-se um rigoroso tribuno contra a esquerda no poder desde os primeiros momentos do governo Lula.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua fisionomia angulosa, cheia de vincos expressivos, fez a alegria dos designers gr\u00e1ficos, que a reproduziram ampliada em in\u00fameras capas de livros e revistas. Ao vivo, o corpo magro e fr\u00e1gil contrastava com o vigor escuro do olhar, o nariz proeminente que lhe dava um perfil de \u00edndio andino, os \u00f3culos met\u00e1licos dominando o rosto de fora a fora, a espessura das sobrancelhas, o gesto constante de levar as m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a e ajeitar os cabelos muito lisos, brancos e compridos, ou ent\u00e3o enxugar com o canto dos dedos a saliva acumulada nos l\u00e1bios grossos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascido em 10 de setembro de 1930, o maranhense Jos\u00e9 Ribamar Ferreira se espraiou em praticamente todos os campos da cultura, da poesia de vanguarda \u00e0 can\u00e7\u00e3o popular, da teoria est\u00e9tica ao jornalismo, da ilustra\u00e7\u00e3o de livros infantis \u00e0 teledramaturgia. Quase sempre, com forte \u00eanfase pol\u00edtica. Para se distrair, entregava-se \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o de quadros de Mondrian e outros de seus mestres europeus, fazia colagens com recortes de revistas ou traduzia poesia. Est\u00e1 entre os primeiros nomes da extensa lista de biografias que ainda precisam ser escritas no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filho do comerciante Jos\u00e9 Ribamar Ferreira e da dona de casa Alzira Goulart, que lhe inspiraria o nome liter\u00e1rio, Gullar publicou seu primeiro livro em edi\u00e7\u00e3o do autor em sua S\u00e3o Lu\u00eds natal, em 1949. &#8220;Um Pouco Acima do Ch\u00e3o&#8221; n\u00e3o teria lugar nas futuras edi\u00e7\u00f5es de obra completa organizadas pelo poeta: trata-se, diz ele, de &#8220;um tateio inicial&#8221;, &#8220;um livro ing\u00eanuo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O seu segundo trabalho, de 1954, tamb\u00e9m saiu em edi\u00e7\u00e3o do autor, mas de ing\u00eanuo n\u00e3o tinha absolutamente nada. &#8220;A Luta Corporal&#8221; foi a fagulha de um novo tipo de escrita que nos anos seguintes mudaria as no\u00e7\u00f5es tradicionais de verso, p\u00e1gina, livro de poesia \u2014em resumo, a pr\u00f3pria poesia, tal como a entend\u00edamos at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrito solitariamente, quando o autor j\u00e1 vivia no Rio (desde 1951), mas ainda tinha poucas conex\u00f5es com o mundo liter\u00e1rio, o livro soava como um salto radical em todas as dimens\u00f5es \u2014sonoras, gr\u00e1ficas, sem\u00e2nticas\u2014 e todas as possibilidades que a palavra impressa poderia oferecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Diagramado e editado por mim, ele refletia a preocupa\u00e7\u00e3o com a utiliza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o em branco na estrutura\u00e7\u00e3o espacial dos poemas, como tamb\u00e9m na titulagem e no uso da p\u00e1gina em branco, feito camadas de sil\u00eancio acumuladas nas p\u00e1ginas&#8221;, recordaria Gullar, anos mais tarde, em seu livro &#8220;Experi\u00eancia Neoconcreta&#8221; (Cosac Naify), volume que recupera os seus anos heroicos do neoconcretismo, ao lado dos artistas pl\u00e1sticos Lygia Clark, H\u00e9lio Oiticica e outros amigos. Segundo ele, &#8220;A Luta Corporal&#8221; se encerrava com a &#8220;implos\u00e3o da linguagem&#8221;. &#8220;Mu gargantu \/ FU burge \/ MU gu\u00ealu, Mu \/ Tempu &#8211; PULCI&#8221;, escreve ele numa das passagens mais cheias de escombros.<\/p>\n<div class=\"articleGallery rs_skip\" style=\"text-align: justify;\" data-id=\"480260\">\n<div class=\"gallery-content\">\n<h4 class=\"title\"><a href=\"http:\/\/fotografia.folha.uol.com.br\/galerias\/48026-ferreira-gullar\">Ferreira Gullar<\/a><\/h4>\n<div class=\"image\">\n<div class=\"credit\">Marcelo Magalh\u00e3es\/Divulga\u00e7\u00e3o<\/div>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2016\/05\/16\/609709-970x600-1.jpeg\" width=\"620\" height=\"383\" \/><a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2016\/12\/1838326-poeta-ferreira-gullar-morre-aos-86-anos-no-rio.shtml#\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2016\/12\/04\/656478-970x600-1-medium.jpeg\" width=\"70\" height=\"54\" \/><\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Naquele tempo eu n\u00e3o tinha fam\u00edlia, nem uma vida regular, vivia sozinho num quarto perto da pra\u00e7a da Cruz Vermelha [no Rio]&#8221;, contaria o autor, anos mais tarde, \u00e0 equipe dos &#8220;Cadernos de Literatura Brasileira&#8221;. &#8220;Era uma vida desligada da realidade comum de todos. Eu vivia, ent\u00e3o, &#8216;num clima de aventura&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre seus primeiros leitores, estava o escritor Oswald de Andrade, que apareceu de surpresa para cumprimentar Gullar no dia de seu anivers\u00e1rio, em 1953. O autor de &#8220;Poesia Pau-Brasil&#8221; tinha lido &#8220;A Luta Corporal&#8221; ainda nos originais e se impressionou pelo vigor daquele jovem poeta maranhense.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro tamb\u00e9m o aproximou de dois personagens-chave: os irm\u00e3os Haroldo e Augusto de Campos e Decio Pignatari. Conta Gullar que os tr\u00eas poetas entraram em contato com ele por carta, depois de terem lido &#8220;A Luta Corporal&#8221;. Augusto foi ao Rio para um encontro com Gullar, no qual teria manifestado insatisfa\u00e7\u00e3o com o estado da poesia brasileira naquele momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A correspond\u00eancia inaugurada ali gestou uma das mais importantes revolu\u00e7\u00f5es art\u00edsticas do s\u00e9culo 20 no Brasil, e tamb\u00e9m uma curta, por\u00e9m f\u00e9rtil, colabora\u00e7\u00e3o entre o grupo dos paulistas e o dos cariocas. N\u00e3o demorou a nascer tamb\u00e9m uma das mais duradouras disputas intelectuais do pa\u00eds, que come\u00e7ou em torno da paternidade da aboli\u00e7\u00e3o do verso tradicional. Isto \u00e9, quem foi o primeiro a afirmar que um poema j\u00e1 n\u00e3o precisava mais ser organizado em linhas para ser um poema?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gullar e os paulistas estavam juntos, na 1\u00aa Exposi\u00e7\u00e3o Nacional de Arte Concreta, realizada em S\u00e3o Paulo em dezembro de 1956. Em fevereiro de 1957, quando foi inaugurada no Rio, Gullar publicou no &#8220;Suplemento Dominical do Jornal do Brasil&#8221; um artigo em resposta a um manifesto de Haroldo de Campos em que explicitava as diferen\u00e7as que enxergava entre o seu grupo, o dos &#8220;cariocas&#8221;, e os dos paulistas. Para Gullar, Haroldo defendia a subordina\u00e7\u00e3o da poesia a equa\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas. &#8220;Considerando que aquilo era invi\u00e1vel&#8221;, registraria Gullar, anos mais tarde, &#8220;telefonei a Augusto, dizendo que n\u00e3o podia subscrever semelhante teoria. Sua resposta foi que eu ent\u00e3o procedesse como me parecesse melhor, pois eles n\u00e3o desistiriam daquela tese.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora conhecidos respectivamente como os &#8220;neoconcretos&#8221; e os &#8220;concretos&#8221;, os dois grupos passariam a reivindicar o pioneirismo na dissolu\u00e7\u00e3o do verso e na explora\u00e7\u00e3o das dimens\u00f5es concretas da palavra. A disputa, que acompanharia os contendores ao longo da vida inteira, n\u00e3o \u00e9 facilmente explic\u00e1vel, mas influenciou as gera\u00e7\u00f5es de artistas subsequentes e ecoou, por exemplo, no Tropicalismo de Caetano Veloso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Lembro-me que defendia a tese de que a quest\u00e3o fundamental da nova poesia n\u00e3o era &#8216;criar um novo verso&#8217; (como escrevera Haroldo na ocasi\u00e3o) e, sim, &#8216;superar o car\u00e1ter unidirecional da linguagem, rompendo com a sintaxe verbal'&#8221;, rememora Gullar em &#8220;Experi\u00eancia neoconcreta&#8221;. &#8220;Esta tese foi aceita por eles e de algum modo contribuiu para que buscasse solu\u00e7\u00e3o no poema visual, constru\u00eddo geometricamente no espa\u00e7o da p\u00e1gina.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais adiante, o poeta reconhece: &#8220;Sem qualquer d\u00favida, o contato com Augusto de Campos e com suas experi\u00eancias po\u00e9ticas me ajudou a sair do impasse a que chegara com &#8216;A Luta Corporal'&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquele encontro no Rio, em 1955, ainda renderia, quase 60 anos depois, uma agressiva troca de farpas entre Gullar e Augusto de Campos, relativa \u00e0s afirma\u00e7\u00f5es do maranhense de que foi ele quem apresentou aos irm\u00e3os Campos a poesia de Oswald de Andrade, refer\u00eancia central para os concretos. Em artigos publicados na <b>Folha<\/b>, ambos reconstitu\u00edram em min\u00facias o encontro, realizado no restaurante Spaghettil\u00e2ndia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>SUPLEMENTO DOMINICAL DO JB<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seja como for, a influ\u00eancia m\u00fatua entre os concretos e os neoconcretos \u00e9 ineg\u00e1vel e teve importantes desdobramentos na poesia e na teoria est\u00e9tica brasileira. Pignatari e os Campos deram prosseguimento \u00e0 poesia concreta no grupo Noigandres; Gullar ganhou destaque como cr\u00edtico e te\u00f3rico do grupo carioca, em seus artigos publicados no &#8220;SDJB&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde 1955, Gullar estava engajado no projeto do &#8220;Suplemento Dominical&#8221; do &#8220;Jornal do Brasil&#8221;, considerado um marco do jornalismo cultural brasileiro tanto em termos de design gr\u00e1fico \u2014quem fazia a diagrama\u00e7\u00e3o e ilustrava era o artista pl\u00e1stico Amilcar de Castro\u2014 como de texto. A turma do &#8220;SDJB&#8221; era o correspondente, no jornalismo e na arte de vanguarda, do \u00edmpeto criativo de Jo\u00e3o Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes na cria\u00e7\u00e3o da Bossa Nova.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caderno levou a sensibilidade da vanguarda carioca para as p\u00e1ginas de um jornal dos mais tradicionais: era uma esp\u00e9cie de protetorado do grupo neoconcreto, com Gullar e pesos-pesados como Janio de Freitas, Reinaldo Jardim, Franz Waissman, Lygia Clark e Lygia Pape.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No &#8220;SDJB&#8221; Gullar publicou textos centrais como o &#8220;Manifesto Neoconcreto&#8221; e a &#8220;Teoria do N\u00e3o Objeto&#8221; (1959), pequeno ensaio que alguns colegas de Gullar coassinaram, no qual s\u00e3o antecipadas quest\u00f5es centrais da arte contempor\u00e2nea nas d\u00e9cadas vindouras, n\u00e3o apenas no Brasil, mas em n\u00edvel mundial: a obra de arte que s\u00f3 se torna arte com a participa\u00e7\u00e3o ativa do espectador, o &#8220;n\u00e3o objeto&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele ano, nasceram obras que ilustram o pioneirismo de seu autor: os livros-poema, os poemas espaciais e o &#8220;Poema enterrado&#8221; -um buraco cavado no terreno da casa do pai do artista H\u00e9lio Oiticica, com cubos de diferentes cores e tamanhos que o espectador podia manipular. Debaixo do menor dos cubos, havia um quadrado com a palavra &#8220;rejuvenes\u00e7a&#8221;. Uma inunda\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, inviabilizou a inaugura\u00e7\u00e3o do &#8220;Poema enterrado&#8221;, que jamais seria exibido ao p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>POEMA SUJO<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o &#8220;clima de aventura&#8221; de sua vida no Rio tinha sido determinante para escrever &#8220;A Luta Corporal&#8221;, as aventuras solit\u00e1rias do ex\u00edlio devolveram Gullar \u00e0 cria\u00e7\u00e3o po\u00e9tica radical, sem as amarras da poesia engajada. Em 1975, ele publicou &#8220;Dentro da Noite Veloz&#8221;, um dos mais importantes livros de poesia da d\u00e9cada. No ano seguinte, <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2016\/12\/1838355-contra-censura-gravacao-do-poema-sujo-foi-contrabandeada-por-vinicius.shtml\">Gullar comp\u00f5e o &#8220;Poema Sujo&#8221;<\/a>, seu poema mais conhecido e \u00edcone da resist\u00eancia \u00e0 ditadura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No embalo do &#8220;Poema Sujo&#8221;, do sinal verde de Golbery e de sua absolvi\u00e7\u00e3o no processo policial-militar que o levara a deixar o Brasil, Gullar decidiu se arriscar a retornar \u2014n\u00e3o sem tomar algumas precau\u00e7\u00f5es, como convocar a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa (ABI), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o Sindicato dos Jornalistas para acompanhar seu desembarque.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por volta de oito horas da noite do dia 10 de mar\u00e7o de 1977, o poeta pousou no aeroporto do Gale\u00e3o, no Rio. Recebido por uma multid\u00e3o de amigos e jornalistas, n\u00e3o foi detido \u2014mas no dia seguinte seria intimado pela Pol\u00edcia Mar\u00edtima. Passou o fim de semana nas m\u00e3os de policiais, foi levado de um por\u00e3o da repress\u00e3o para outro, tiraram-lhe a roupa e o pressionaram a responder sobre &#8220;a escola de subvers\u00e3o&#8221; que frequentara em Moscou. Foi libertado ap\u00f3s uma forte mobiliza\u00e7\u00e3o de amigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco depois, ao pedir a seu advogado que sacramentasse no Superior Tribunal Militar a extin\u00e7\u00e3o do processo movido contra si, Gullar descobriu que, nos autos, o Jos\u00e9 Ribamar Ferreira procurado era outro: um l\u00edder campon\u00eas, tamb\u00e9m maranhense, que, ao contr\u00e1rio do seu hom\u00f4nimo poeta, abra\u00e7ara a luta armada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>CONSAGRA\u00c7\u00c3O<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se \u00e9 certo que Ferreira Gullar, ap\u00f3s cair na clandestinidade em 1970, percebendo que mais cedo ou mais tarde iria parar na cadeia, voltou ao pa\u00eds na condi\u00e7\u00e3o de artista consagrado, ele s\u00f3 pode desfrutar a consagra\u00e7\u00e3o com a abertura pol\u00edtica, a partir de 1978, quando o AI-5 perdeu a validade, e 1979, quando passa a valer a Lei de Anistia. Naquele mesmo ano, sua voz anasalada e met\u00e1lica ganhou a forma de LP no \u00e1lbum &#8220;Antologia Po\u00e9tica&#8221;, com m\u00fasica de Egberto Gismonti, e Bibi Ferreira montou a primeira pe\u00e7a que Gullar assinou sozinho, &#8220;Um Rubi no Umbigo&#8221;. Em 1980, quando fez 50 anos, teve sua obra po\u00e9tica reunida pela primeira vez na edi\u00e7\u00e3o &#8220;Toda Poesia&#8221; e lan\u00e7ou &#8220;Na Vertigem do Dia&#8221;, sua primeira colet\u00e2nea de poemas desde &#8220;Poema Sujo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A convite de Dias Gomes, seu ex-camarada de Partid\u00e3o, Gullar passou a integrar o n\u00facleo de teledramaturgia da TV Globo, tendo escrito roteiros para s\u00e9ries como &#8220;Carga Pesada&#8221; e para a novela &#8220;Araponga&#8221;. Nos anos 1980 e 90, o trabalho na TV dividiria o tempo do poeta com a publica\u00e7\u00e3o de livros de poemas, ensaios, tradu\u00e7\u00f5es e cr\u00f4nicas. Escreveu letras para uma d\u00fazia de can\u00e7\u00f5es: tem parcerias com Caetano Veloso (&#8220;Onde Andar\u00e1s&#8221;), Milton Nascimento (&#8220;Bela bela&#8221;) e Fagner (o hit &#8220;Borbulhas de Amor&#8221;). Entre 1992 e 1995, presidiu o Instituto Brasileiro de Artes e Cultura (Ibac), nome que Gullar trocaria pela antiga denomina\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o, Funarte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O retorno a uma interven\u00e7\u00e3o permanente no debate cultural e pol\u00edtico viria com for\u00e7a em 2005, quando passou a assinar uma coluna na &#8220;Ilustrada&#8221;. Relida hoje, a coluna de estreia, &#8220;Resmungos&#8221;, revela uma impressionante coer\u00eancia do colunista nos mais de 11 anos que viriam pela frente. O autodeclarado &#8220;cronista bissexto&#8221; anuncia que vai escrever sobre pol\u00edtica, &#8220;que n\u00e3o exige muita especializa\u00e7\u00e3o&#8221;, e arte, assunto sobre o qual &#8220;at\u00e9 j\u00e1 escrevi livros&#8221;, ironiza. E, logo de sa\u00edda, fustiga cr\u00edticos e obras de arte contempor\u00e2nea. De fato, espezinhar os governos petistas, ainda no auge do lulismo, e implicar com artistas, curadores e cr\u00edticos seriam seus esportes prediletos nas p\u00e1ginas da Ilustrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(A coluna ainda serviria, de vez em quando, como um raro espa\u00e7o confessional: Gullar valeu-se dela para combater causas que eram consenso nos meios de esquerda, como a lei que dificultou a interna\u00e7\u00e3o de doentes mentais e as campanhas pela legaliza\u00e7\u00e3o de drogas. Dois filhos do escritor, Marcos, morto em 1993, e Paulo, tinham esquizofrenia grave, atribu\u00edda pela fam\u00edlia ao abuso de drogas, nos anos 1970, durante o ex\u00edlio. Gullar e sua mulher, Thereza Arag\u00e3o, morta em 1994, ainda tiveram uma filha, Luciana.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Transformados em livro, os resmungos de Gullar ganharam o Pr\u00eamio Jabuti de 2007. Aquela era uma temporada de pr\u00eamios \u2014o Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra, veio em 2005, quando o poeta fez 75 anos. Em 2010, a mais alta distin\u00e7\u00e3o da l\u00edngua portuguesa, o Pr\u00eamio Cam\u00f5es, foi de Ferreira Gullar. Em 2011, os Jabutis de poesia e de Livro do Ano foram para os poemas de &#8220;Em Alguma Parte Alguma&#8221;. Em 2014, foi eleito para a cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras, depois de passar anos afirmando que jamais aceitaria a imortalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Flip, Gullar disse uma frase que viralizou nas redes sociais: &#8220;N\u00e3o quero ter raz\u00e3o, quero \u00e9 ser feliz!&#8221;. Outra m\u00e1xima criada por Gullar, &#8220;a crase n\u00e3o foi feita para humilhar ningu\u00e9m&#8221;, publicada em 1955 no &#8220;Di\u00e1rio de Not\u00edcias&#8221;, mais tarde seria citada at\u00e9 em an\u00fancios de computadores IBM, para deleite do autor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os livros que Gullar publicou nessa temporada de pr\u00eamios sugerem que o octogen\u00e1rio cheio de vitalidade n\u00e3o estava dando muita bola para aquelas honrarias &#8211; e provavelmente estava feliz. Em &#8220;Zoologia Bizarra&#8221; (2010) e &#8220;Bichos do Lixo&#8221;, com um prosaico hobby dom\u00e9stico, a colagem de pap\u00e9is coloridos, ele se fez ilustrador de literatura infantil &#8211; evidentemente, comp\u00f4s poemas para acompanhar os bichos de papel. J\u00e1 em &#8220;Bananas Podres&#8221; (2012) Gullar retoma uma imagem recorrente em sua obra po\u00e9tica &#8211; o amadurecimento das frutas &#8211; em poemas manuscritos por ele mesmo e ilustra\u00e7\u00f5es a guache sobre jornais velhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gullar deixa a companheira Claudia Ahimsa, dois filhos e oito netos.<\/p>\n<p class=\"tagline rs_skip\" style=\"text-align: justify;\"><b>PAULO WERNECK<\/b> \u00e9 editor de livros e ex-curador da Flip (Festa Liter\u00e1ria Internacional de Paraty)<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PAULO WERNECK\/MORRESPECIAL PARA A FOLHA Ferreira Gullar, poeta, ensa\u00edsta, cr\u00edtico de arte, tradutor, bi\u00f3grafo e colunista da Folha desde 2005, morreu por volta das 10h deste domingo (4), aos 86 anos. Sua neta, Celeste, confirmou a morte. Ele estava internado no hospital Copa D&#8217;Or, no Rio de Janeiro, h\u00e1 cerca de 20 dias devido a insufici\u00eancia respirat\u00f3ria. Segundo Maria Am\u00e9lia Mello, amiga e editora de Gullar na Jos\u00e9 Olympio e tamb\u00e9m de seu \u00faltimo livro, &#8220;Autobiografia Po\u00e9tica e Outros Textos&#8221; (Editora Aut\u00eantica), o poeta morreu de pneumonia. Com grande independ\u00eancia, quase sempre remando contra a corrente no poder, Gullar frequentou diferentes regi\u00f5es de um amplo espectro ideol\u00f3gico. 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